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Nossos ancestrais abrigaram-se em cavernas por muito mais tempo do que
o fizeram em casas. Os desenhos nas paredes das cavernas na aurora dos
tempos são testemunhas silenciosas de que os primeiros humanos
especulavam acerca dos mais profundos recessos da Terra. Entende-se porque
a idéia de vida subterrânea persistiu tão longamente no imaginário dos
homens.
À medida que a mente humana se desenvolveu e encetou infinitas especulações
sobre o Universo, o subterrâneo pareceu tão atraente quanto as estrelas.
Alguns mitos povoavam os céus e os cumes mais remotos com deuses, outros
falavam de um Mundo das profundezas, num reino de divindades igualmente
poderosas - embora na maioria das vezes menos benevolentes. Quando o globo
terrestre foi desvendando seus segredos a ousados exploradores, os
viajantes que declaravam ter encontrado portões para Reinos Subterrâneos
eram ouvidos com a mesma credibilidade dedicada àqueles que se referiam a
novas terras além dos mares. Houve relatos assombrosos sobre uma região
misteriosa localizada no centro da Terra e povoada por bons gigantes ou
esquimós, gnomos ou répteis pré-históricos. Mesmo hoje, que todo o
planeta já foi explorado, fotografado e sondado por sofisticados
instrumentos, mantém-se uma certa dose de incerteza (mesmo que
romantizada). O escuro fundo da caverna ainda não foi inteiramente
iluminado.
Nas crenças antigas, os mundos ocultos sob a superfície da Terra
ocupavam um posição de destaque. Os budistas da Ásia central
referiam-se ao reino de Agartha, formado por uma labirinto de passagens
subterrâneas do tamanho do mundo. Agartha abrigava as populações de
continentes extintos e era um centro de progresso intelectual e de
desenvolvimento da razão.
O legendário rei assírio-babilônico Gilgamés, acreditava-se, teve uma
longa conversa sobre o mundo interior com o fantasma de um companheiro
morto. Os gregos passavam o tempo especulando sobre as profundezas da
Terra; um de seus mitos conta como o músico Orfeu tentou, em vão, salvar
sua mulher Eurídice do deus Hades. O poeta Homero imaginou um mundo
subterrâneo aguardando explorações e o filósofo Platão escreveu que
havia ''túneis ao mesmo tempo amplos e estreitos no interior'', e no
centro um deus que se assenta sobre ''o umbigo do Mundo''. Os egípcios
acreditavam num reino subterrâneo infernal e os cristãos, mais tarde,
tiveram seu Inferno. De acordo com algumas histórias, os incas ocultaram
seus tesouros do conquistador espanhol em profundos túneis cuja localização
é até hoje desconhecida.
Mesmo quando a ciência substituiu a lenda para as explicações do
planeta, o mundo subterrâneo não foi esquecido. Um dos pioneiros foi o
astrônomo inglês Edmund Halley, descobridor do cometa que leva seu nome.
Ele percebeu que o norte magnético nem sempre estava no mesmo lugar. Ao
estudar as posições indicadas por bússola e anotadas por ele ou por
outros, em toda parte, ele identificou diversos padrões de erro. Para explicar
o fenômeno, ele imaginou a existência de mais de um campo magnético.
Considerou a hipótese de que a Terra tivesse uma casca externa, com um núcleo
interno separado. Cada um desses globos teria seu próprio eixo, e eles
estariam levemente inclinados um para o outro com velocidades de rotação
diferentes.
Como muitos outros desbravadores da ciência, Halley sentia que devia
adaptar essa engenhosa teoria a suas crenças religiosas. O mundo interior
também seria rico em vida. Mas isso dava origem a outro problema, pois
parecia evidente que a vida exige luz. Halley aventou a possibilidade de a
própria atmosfera interior ser luminosa e a aurora boreal ser causada
pelo escoamento dessa essência resplandecente através da fina crosta do
planeta no Pólo Norte. Durante o século XVIII, as idéias de Halley
foram modificadas, mas não refutadas.
O Matémático suiço Leonhard Euler, substituiu a idéia da atmosfera
luminosa por um sol interior. Mais tarde o matemático escocês Sir John
Leslie concluiu que existiam de fato dois sóis interiores, batizando-os
com os nomes de plutão e Proserpina.
Dezenas de lendas e relatos vindos dos quatro cantos do Mundo alimentaram
a crença de um Mundo Interior. Um dos maiores escritores dos Estados
Unidos, Edgar Allan Poe foi influenciado por essas lendas. No conto
''manuscrito encontrado numa garrafa'' e em seu romance ''As Aventuras de
Arthur Gordon Pym'', Poe escreve viagens trágicas que acabam com navios
sendo sugados para dentro de uma abismo aquático no Pólo Sul - idéias
baseadas nos escritos de Jeremiah N. Reynolds sobre a Terra oca.
Provavelmente os dois jamais de encontraram, mas ao morrer num hospital de
Baltimore, em 1949, Poe chamava o nome de Reynolds.
O efeito estimulante das especulações científicas sobre os escritores
de ficção era uma marca registrada do século XIX, e muitas excursões
ficcionais eram apresentadas de forma tão plausível que os leitores
tinham dificuldade em separar o real do imaginário. Os vôos de fantasia
literária alcançaram sua máxima credibilidade - inclusive na previsão
do futuro - na obra de Júlio Verne. Uma de suas primeiras incursões
nesse mundo fantástico, onde fato e fantasia se confundem, foi ''Viagem
ao Centro da Terra''. Sua história era tão convincente, que na época
cientistas e leigos se perguntavam se era verdade.
A mesma pergunta foi formulada muitas vezes a respeito do romance ''A Raça
Invasora'' de Lord Lytton em 1873. Sua história, como a de Júlio Verne,
começa com a descoberta casual de uma abertura para um mundo subterrâneo.
Mas o que o narrador de Lytton encontra, é muito mais terrível do que as
fantasias de Júlio Verne.
Mais ou menos ao mesmo tempo em que Lytton escreveu seu estranho livro -
que seria adotado pelos ocultistas -, um herborista americano alaborava
uma teoria completa da Terra Oca. Ela não está abaixo de nós, mas
acima, afirmava Cyrus Read Teed. Não estamos sobre o globo terrestre, mas
dentro dele!!!
Com o início do século XX, seria de se esperar que a idéia de uma Terra
Oca ficasse cada vez nais difícil de defender. Afinal, havia exploradores
vasculhados toda a superfície do mundo. Os dados que eles iam coletando,
porém, não puseram fim às especulações em torno da idéia de uma
Terra Oca. Surgiram mesmo dois novos defensores da teoria: William Reed e
Marshall B. Gardner, que apresentavam argumentos de peso. Ambos foram
estimulados por certas descobertas anômalas feitas por exploradores
polares. Uma delas era que, de acordo com diversos relatos, a água e o ar
iam se aquecendo com a proximidade do Pólo Norte. Fridjof Nansen, o
explorador e estadista norueguês, relatou que no âmago do Círculo Polar
chegava a ser difícil dormir devido ao calor. Observou que aparentemente
e temperatura se elevava com ventos vindos do norte, enquanto os que
vinham do sul faziam-na baixar.
Outros viajantes referiam-se a correntes quentes desse tipo e descreveram
uma abundante vida silvestre - aves, mamíferos e nuvens de mosquitos -
encontrada em alta latitudes. Muitos desses animais pareciam estar
migrando para o norte, não para o sul, e foram vistos voltando de
temporadas em regiões supostamente desoladas com aspecto lustroso e bem
alimentados. Alguns viajantes disseram ter visto neve multicor: vermelha,
verde, amarela e preta.
Um mistério ainda mais notável criara-se em 1846 com a descoberta de um
mamute peludo, extinto há muito tempo, congelado na Sibéria. O animal
estava tão bem conservado no frio ártico que seu estômago ainda
continha sinais identificáveis de sua última refeição. Os cientistas
tentaram deduzir como o enorme animal poderia ter se congelado tão
depressa, a ponto de interromper seus processos digestivos, que
normalmente continuaria depois da morte. Para Marshall Gardner os mamutes
não estavam extintos em absoluto e que viviam no interior quente da
Terra.
Em seu livro ''O Fantasma dos Pólos'', William Reed apresentou uma
explicação para a neve colorida mencionada pelos viajantes. O vermelho,
o verde e o amarelo devem ser pólem, disse; o preto devem ser fuligem dos
vulcões. E tudo deve ter vindo do interior da Terra, a mais próxima
fonte possível. Explicar o aquecimento polar já era mais difícil, mas
Gardner e Reed atribuíram o fato a aberturas para o mundo interior. Reed
afirmou que a crosta terrestre teria 1300 quilômetros de espessura, com a
gravidade agindo em sentido à parte mais profunda da ''casca''. Em outras
palavras, a mesma gravidade que atraía os objetos no exterior da esfera,
dentro dela impelia os objetos do centro pra fora. Assim, os viajantes
podiam navegar sobre a borda das aberturas polares sem se darem conta de
que haviam trocado de um mundo pelo outro.
Gardner acreditava que havia um sol central, com um diâmetro provável de
mil quilômetros, remanescentes da nebulosa giratória que dera origem à
Terra. Esta era a explicação para a aurora boreal no Pólo Norte e da
aurora austral no Pólo Sul. Nesse aspecto, Gardner divergia de Reed, que
afirmava que a luz do mundo interior fornecida pelo sol que
iluminava os Pólos. Quando às auroras, Reed oferecia uma explicação
engenhosa. As luzes do norte, dizia, são as imagens de incêndios ou vulcões
internos.
Reed estava ansioso para que a Terra interior, com seus ''vastos
continentes, oceanos, montanhas e rios, vida vegetal e animal'', começasse
a ser utilizada.
De seu lado, Gardner achava que pelo menos parte do interior estaria
ocupado por esquimós, que deviam ser originários de lá. Corroborava
essa afirmação com os mitos esquimós acerca de uma pátria cálida ao
norte do Ártico. Para Gardner, os esquimós deviam ter migrado para a
região gelada onde vivem atualmente porque era mais fácil caçar baleias
e focas alí do que no mar aberto.
Enquanto Reed e Gardner contentavam-se com a teoria sobre o mundo
interior, Olaf Jansen simplesmente afirmava ter estado lá. Jansen era um
navegador norueguês. Pouco antes de morrer, contou ao escritor Willis
George Emerson, um de seus raros amigos, uma história incrível, que
Emerson publicou em 1908 sob o título de ''O Deus Brumoso, ou Viagem ao
Mundo Interior''. Jansen esperara para revelar a verdade, explicou, porque
quando tentara contar a história pela primeira vez fora internado num
hospício durante 28 anos.
Antes que exames aéreos detalhados pudessem reunir mais informações
sobre as regiões polares, houve uma espécie de era obscurantista, em que
a guerra e a tirania interromperam as explorações e o progresso científico.
Em 1933, Adolf Hitler proclamou-se líder de um Reich Milenar, civilização
de super-homens que governaria o Mundo.
Peter Bender, aviador alemão gravemente ferido na Primeira Guerra
Mundial, atraiu a simpatia popular na Alemanha da década de 30 com suas
especulações sobre o Mundo Interior. Parece que os principais líderes
nazistas, inclusive Hitler, viam com seriedade o conceito de mundo côncavo.
Em abril de 1942, em plena Guerra, o doutor Heinz Fisher, especialista em
radiação infravermelha, supostamente conduziu uma equipe de cientistas
numa expedição secreta à ilha báltica de Rügen. Lá, apontaram para o
céu, num ângulo de 45 graus, uma câmera de grande potência, carregada
com filme infravermelho, e deixaram-na nessa posição durante diversos
dias. O objetivo, que não foi bem sucedido, era fotografar a frota britânica
através do interior oco da Terra côncava.
Outras teorias sobre mundos interiores foram ganhando força entre nazista
ferrenhos. Houve uma ''Sociedade Vril'', também conhecida como ''Loja
Luminosa'' que acreditavam que o livro de Lord Lytton era verdadeiro e que
era uma antevisão do futuro: ''uma raça de super-homens vindas do
Interior governaria a Terra''. A Loja Luminosa queria entrar em contato
com tal raça de seres ''internos'' para juntos conquistarem o mundo.
Impulsos semelhantes moveram outras organizações. A ''Sociedade Thule da
Bavária'', anti-semita, que incluía entre seus membros o filósofo
nazista Alfred Rauschning e o representanto do führer Rudolf Hess,
acreditava que eram descendentes diretos de Atlântida que viveram no
Himalaia - os lendários chefes secretos do Tibet.
Dizem que Hitler enviou várias expedições até o Himalaia e Mongólia
para tentar descobrir indícios dessa civilização subterrânea. Ainda em
busca desse conhecimento, parece que algumas unidades especiais do exército
alemão vasculharam várias minas e cavernas na Europa ocupada em busca de
alguma passagem. Além disso, há uma insistente lenda de que nazistas
proeminentes refugiaram-se nas entranhas da Terra quando a Alemanha se
desfez em ruínas.
Nessa época, as explorações aéreas dos pólos iam bem avançadas. Em
1926, o americano Richard E. Byrd, tornara-se o primeiro sobrevoar o Pólo
Norte; três anos depois, realizou o primeiro voô sore o Pólo Sul. Mas
segundo seus relatos, ''nada de estranho havia lá embaixo''.
As descobertas de Byrd pouco contribuíram para acabar com as especulações
acerca da Terra Oca. Em 1952, um escritor chamadp F. Amadeo Giannini,
insistia, num livro intitulado ''Mundo Além dos Pólos''. Diziam que Byrd
na realidade voara para dentro da Terra Interior - 2700 quilômetros além
do Pólo Norte e 3700 quilômetros além do Pólo Sul.
Outros acreditavam numa conspiração dos governos para manterem em
segredo a descoberta. O editor de uma revista ''Amazing Stories'' Ray
Palmer e o escritor Raymond Bernard estavam certos de tais conspirações.
Afirmavam haver descoberto mensagens transmitidas pelos rádios de aviões
que falavam de terras e lagos sem gelo, montanhas cobertas de árvores e
mesmo um animal monstruoso.
Ray Palmer, aproveitando a polêmica sobre o Mundo Interior, publicou em
sua revista uma série de histórias e relatos de pessoas que haviam
conhecido e visto o secreto mundo além dos Pólos. Sua revista, já
bastante popular na época, foi invadida por cartas de milhares de
leitores oferecendo suas ''experiência'' para serem publicadas na
revista.
Outros, além de Palmer e Bernard, achavam que nem tudo fora revelado no
caso Byrd. Vários políticos americanos de oposição alimentaram a crença
de que os ''OVNIS'' - também em moda - haviam feito bases no Mundo
Interior com ajuda dos Comunista.
Houve provas mais conclusivas contra a existência do Mundo Interior a
partir de 1959, quando o submarino nuclear norte-americano ''Skate'',
depois de navegar por baixo da calota polar, emergiu exatamente na superfície
do Pólo Norte. Sua tripulação calculou a velocidade de rotação
terrestre através de da navegação inercial e assim confirmou a chegada
ao Pólo, onde a rotação se concentrava num único ponto.
Palmer não soube o que dizer sobre a expedição ''Skate'', mas retomou a
disputa triunfante em 1970. ''O Buraco!! (...) Agora Temos Uma Foto!'',
anunciava na Revista ''Flying Saucers'', que vinha publicando desde 1957.
De fato, tinha uma fotografia. Era uma de uma cerca de 40 mil fotografias
da Terra feitas por um satélite, onde se via uma espécie de mancha
negra em forma de círculo ao redor do Pólo Norte. ''Quantas fotografias
mais será preciso para provar um fato?'', perguntava Palmer, argumentando
que a suposta abertura estava escondida por nuvens em toda as outras
fotografias de satélite.
Para azar de Palmer, descobriu-se que a fotografia não era o que parecia
ser. Na realidade, não era uma foto convencional, mas um mosaico de
imagens televisivas transmitidas por um satélite orbital. As imagens,
tomadas durantes um período de 24 horas de vários pontos ao longo da órbita
do satélite, foram processadas por um computador e reunidas para formar
uma vista conjunta da Terra como se esta fosse observada de um único
ponto, diretamente acima do Pólo Norte. No período, as regiões próximas
ao pólo estavam toldadas pela escuridão ininterrupta do inverno ártico.
Por isso, o centro da imagem era formado por uma área não-iluminada.
Mesmo com isso tudo, a tese de que há um outro mundo dentro do globo
terrestre ainda tem seus defensores. Com efeito, os cientistas continuam
encontrando o inesperado. As sondagens das profundezas do planeta,
realizadas com instrumentos que analisam os abalos produzidos por
terremotos e explosões provocadas pelo homem, ainda apresentam surpresas
consideradas. E até os cientistas admitem que ainda tem muito que
descobrir sobre as profundezas da Terra
''O fundo da caverna ainda é escuro e o homem ainda sente necessidade de
saber com certeza o que há nele''. Por trás disso está a compulsão de
imaginar mundos melhores, onde problemas insolúveis do homem foram
resolvidos. Existe um desejo humano quase instintivo, de perseguir todo indício,
mesmo frágil, que possa levar a um lugar iluminado ou secreto, seja ele
Agartha, sob a superfície da Terra, Atlântida, sob a superfície do Mar
ou até fora do nosso pequeno Planeta. Não basta provar que tais lugares
ou coisas não existem. Isso não é importante. Enquanto houver homens
para pensá-los, os mistérios sobreviverão.
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