Areia de deserto terrestre pode desmentir suspeita de vida marciana
10/ 11/ 2003 - O deserto do
Atacama, no Chile, pode jogar alguma luz
sobre o mistério de polêmicos sinais obtidos por duas sondas enviadas a
Marte em 1976, que indicaram atividade bacteriana no planeta vermelho.
Segundo uma nova pesquisa, tudo não passou de um falso positivo, como já
desconfiava a maioria dos cientistas.
O estudo, publicado hoje na revista americana ''Science'', descreve uma
região desértica terrestre que apresenta características muito
similares às encontradas quase três décadas atrás pelos módulos de
pouso das naves Viking-1 e 2, em Marte.
Partindo disso, o grupo de cientistas, composto por pesquisadores da Nasa,
da Universidade Nacional Autônoma do México e da Universidade de
Antofagasta, no Chile, decidiu usar os solos terrestres para ver se
reagiriam de forma análoga à dos marcianos.
As amostras de solo do Atacama, previamente caracterizadas como secas e
biologicamente pobres, quando combinadas a um caldo nutritivo,
apresentaram reação similar à observada em amostras marcianas -- qual
seja, o consumo das moléculas orgânicas e a liberação de gás carbônico.
Embora o resultado pareça ser um sinal inequívoco de
metabolismo biológico, o grupo liderado por Christopher McKay, do Centro
de Pesquisa Ames, da Nasa, constatou que a resposta na verdade é
puramente química, sem ação de formas de vida. Ao que tudo indica, o
solo ressecado adquire propriedades oxidantes, o que consome material orgânico
da solução nutritiva e promove a resposta observada.
''Esses resultados apontam que o material da superfície marciana testado
pela Viking era quimicamente reativo e aparentemente livre de vida e
compostos orgânicos'', diz Richard Quinn, do Ames e do Seti Institute, um
dos autores da pesquisa. ''No centro do Atacama e de Marte, a extrema
aridez, combinada com a radiação solar, pode resultar na formação de
ciclos químicos que decompõem compostos orgânicos e inibem a vida. É
essa similaridade que faz de Atacama um interessante análogo de Marte'',
afirma.
CONTROVÉRSIA - Embora a comunidade científica em geral já tenha
aceitado a presença de oxidantes marcianos, em vez de bactérias, para
explicar os resultados da Viking, o mesmo não se pode dizer do criador do
experimento que obteve o polêmico resultado em Marte. Desde 1976 Gil
Levin tem sido uma voz solitária entre os pesquisadores, insistindo que
seu teste, chamado LR (Labelled Release, ou ''liberação etiquetada''),
em verdade detectou vida no planeta vermelho.
Segundo ele, nenhum experimento, tampouco o reportado hoje na ''Science'',
conseguiu reproduzir ou explicar o que foi visto em Marte. E ele enxerga sérios
problemas com o último.
''Os autores, três dos quais eu conheço pessoalmente e estão totalmente
familiarizados com minhas numerosas e recentes publicações sobre o
assunto, manipulam o leitor ao omitir referências que contradizem suas
abordagens e conclusões. Eles mostram uma estratégia meio amadora,
fortemente enviesada com relação à técnica microbiológica, ao uso de
controles apropriados e à interpretação dos resultados, numa tentativa
de encobrir, em vez de discutir objetivamente, os resultados do
experimento LR.''
Ao ser informado da publicação do novo estudo, Levin decidiu estender os
protestos à revista ''Science''. ''Fui surpreendido ao ficar sabendo do
artigo'', ele escreveu ao editor-chefe da publicação, Donald Kennedy.
''Primeiro, senti que deveria ter sido chamado para fazer a revisão do
artigo, já que ele foi provocado pelo meu experimento de detecção de
vida da missão Viking. Segundo, estou incomodado com a revisão relaxada
que aparentemente foi conduzida. Isso faz forte contraste com a recepção
dos meus manuscritos à ''Science'', que foram considerados de interesse
específico demais, até mesmo para serem submetidos a revisão!''
Com respeito aos estudos de Levin mencionados, Quinn não tem muito a
dizer: ''Eu não conheço ninguém na comunidade de pesquisa científica
sobre Marte que concorde com a interpretação dele dos resultados do
LR''.
SEGUNDA CHANCE - Há anos Levin advoga pelo envio de uma nova versão
do LR, aumentada, para confirmar ou refutar suas conclusões a respeito do
experimento das Vikings. Para ele, a Nasa tem feito corpo mole.
''Ninguém jamais sugeriu que o LR do dr. Levin não fosse um experimento
excelente'', justifica James Garvin, cientista-chefe do Programa de
Exploração de Marte da agência espacial americana. ''Mas numa ciência
limitada pelo orçamento, não é comum o caso de experimentos que são
relançados e relançados. A Nasa encoraja o dr. Levin a propor seu
experimento para o Mars Science Laboratory [missão para 2009, cuja
instrumentação ainda não está definida] e a permitir que seus pares
científicos julguem se um novo experimento LR oferece o maior valor científico
à missão.''
Curiosamente, a despeito dos resultados no Atacama, é exatamente o que
McKay e Quinn pretendem fazer. ''Embora nossos novos instrumentos não
sejam experimentos de detecção de vida, ambos incorporam técnicas que
estudam processos quirais [os mesmos que compõem a versão ampliada do
LR]'', diz Quinn.