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Autor: Mikhail Bakunin
Fonte: Oeuvres, Vol. IV, 1910
É óbvio que a liberdade não será restituída à humanidade, e que os
verdadeiros interesses da sociedade – quaisquer que sejam os grupos,
organizações sociais ou indivíduos que a compõem – só serão
satisfeitos quando os Estados não mais existirem. Está claro que todos
os chamados interesses gerais que o Estado deveria representar são de
fato uma abstração, uma ficção, uma mentira. Estes interesses, na
realidade, não são nada mais que a negação total e contínua dos
interesses reais das regiões, comunas, associações e da grande maioria
dos indivíduos submetidos ao Estado. O Estado é um enorme matadouro, um
vasto cemitério no qual, sob a sombra e o pretexto de abstração, todas
as reais aspirações e forças ativas de um país deixaram-se enterrar
generosa e pacificamente.
Já que nenhuma abstração existe por si ou para si mesma, já que não
tem pernas para andar, nem braços para criar, nem estômago para digerir
as milhares de vítimas que lhe são dadas para que devore, torna-se óbvio
que essa abstração religiosa e celestial, o próprio deus, representa na
verdade os interesses muito positivos e reais de uma casta privilegiada, o
clero. Da mesma forma que seu complemento terreno, a abstração política,
que é o Estado, representa os interesses não menos reais e positivos da
classe que é hoje o principal – se não o único – agente da exploração
e que, além disso, ainda demonstra uma certa tendência para absorver
todas as outras classes: a burguesia. E assim como o clero sempre estava
dividido e hoje tende a dividir-se ainda mais entre uma minoria rica e
poderosa e uma maioria empobrecida que lhe é subordinada; assim também a
burguesia e suas várias organizações – tanto sociais quanto políticas,
na indústria, agricultura, bancos e comércio, bem como em todas as funções
administrativas, financeiras, judiciárias, acadêmicas, policiais e
militares do Estado – tendem a tornar-se uma verdadeira oligarquia.
Transformar-se-ão em enorme massa de indivíduos pretensiosos e
decadentes, vivendo numa ilusão perpétua, empurrados inevitavelmente e
cada vez mais para o proletariado pela força irresistível da situação
econômica atual e reduzidos a servir como instrumentos cegos dessa
toda-poderosa oligarquia.
A abolição da Igreja e do Estado deve ser a primeira e indispensável
condição para a verdadeira libertação da sociedade; só depois que
isso acontecer é que a sociedade poderá ser organizada de uma maneira
diferente. Não de cima para baixo e segundo algum plano ideal sonhado por
alguns sábios e eruditos, e menos ainda por decretos emanados de algum
poder ditatorial, ou ainda por uma assembléia nacional eleita por sufrágio
universal. Como já demonstrei, um tal sistema levaria inevitavelmente à
criação de um novo estado e, conseqüentemente, à formação de uma
aristocracia oficial, isto é, uma classe de indivíduos que não teriam
nada em comum com o povo e que começariam imediatamente a explorar e
subjugar esse povo em nome do bem estar geral ou para salvar o Estado.
A futura organização da sociedade deveria ser realizada de baixo para
cima, pela livre associação e união dos operários; primeiro em associações,
depois em comunas, em regiões, em países e, finalmente, numa grande
federação internacional e universal. Só assim poderá ser estabelecida
a liberdade e a facilidade geral da nova ordem, uma ordem que, longe de
querer negar, garante e tenta harmonizar os interesses dos indivíduos e
da sociedade.
Algumas pessoas acreditam ser impossível obter essa harmonia entre os
interesses dos indivíduos e os interesses da sociedade como um todo, pois
tais interesses são contraditórios, jamais alcançando um equilíbrio ou
até mesmo chegando a um mínimo entendimento mútuo. A tais objeções
respondo que, se até agora esses interesses jamais foram comuns, a culpa
cabe ao Estado, que sempre sacrificou os interesses da maioria em benefício
de uma minoria privilegiada. Aquela famosa incompatibilidade, aquele
conflito entre os interesses pessoais e os da sociedade não são mais do
que um artifício e uma mentira política nascidos de uma mentira teológica,
que inventou a doutrina do pecado original para degredar o homem e
destruir sua consciência íntima de seu próprio valor. Esta falsa idéia
do antagonismo de interesses também foi disseminada pelas ilusões da
metafísica que, como se sabe, é parente próxima da teologia.
Por não compreender a sociabilidade da natureza humana, os metafísicos
consideravam a sociedade um agregado mecânico e artificial de indivíduos.
Este agregado seria formado abruptamente sob a bênção de algum tratado
formal ou secreto, feito livremente ou influenciado por algum poder
superior. Antes de entrar para a sociedade, estes indivíduos, dotados de
uma alma imortal, gozariam de liberdade total.
Os metafísicos, sobretudo os que crêem na imortalidade da alma, afirmam
que, fora da sociedade, os homens podem unir-se em sociedade apenas ao
custo de sua liberdade, sua independência natural e do sacrifício de
sues interesses. Tal renúncia, tal sacrifício deve, portanto, ser mais
imperativo quanto a sociedade for populosa e sua organização mais
complexa. Em tal caso, o Estado é a expressão de todos os sacrifícios
individuais. Por existir de forma tão abstrata e ao mesmo tempo violenta,
o Estado continua cada vez mais a impedir a liberdade individual em nome
da mentira chamada “bem comum”, que obviamente representa os
exclusivos interesses da classe dominante. Desta forma, o Estado se mostra
como uma negação inevitável, uma aniquilação de toda a liberdade, de
todos os interesses individuais e gerais.
Todos os sistemas metafísicos teológicos estão unidos de tal forma que
são mutuamente explanatórios. Esta é a razão porque os defensores
destes sistemas podem e devem continuar a explorar as massas em nome da
Igreja e do Estado. Enchendo seus bolsos e satisfazendo sua luxúria
imunda, eles, ao mesmo tempo, podem consolar-se com a idéia de que estão
trabalhando para a glória de deus, pela vitória da civilização e pela
causa do proletariado.
Mas nós, que não acreditamos em deus, na imortalidade da alma, nem no
livre arbítrio individual, afirmamos que a liberdade deve ser entendida
no seu senso mais amplo e profundo como o destino do progresso histórico
do homem. Por um contraste estranho mas lógico, nossos adversários, teólogos
idealistas e os metafísicos, tomam o princípio da liberdade como o
fundamento e a base de suas teorias e chegam facilmente à
indispensabilidade da escravidão humana. Nós, que somos teoricamente
materialistas, tendemos na prática a criar e fazer durar um idealismo
nobre e racional. Nossos inimigos, os idealistas divinos e
transcendentais, na prática caem num materialismo vil e sangrento.
Praticam-no em nome da mesma lógica, de acordo com a qual, todo progresso
é a negação do princípio básico. Estamos convencidos de que toda
riqueza do progresso intelectual humano, moral e material, assim como a
aparente independência do homem, é produto da vida em sociedade. Fora da
sociedade, o homem não seria livre, e nem mesmo se tornaria um homem
verdadeiro, isto é, um ser autoconsciente que sente, pensa e fala. Apenas
a combinação da inteligência com o trabalho coletivo pode tirar o homem
do estágio selvagem e animalesco que constitui sua primeira natureza, ou
melhor, seu primeiro passo em direção ao progresso. Estamos seriamente
convencidos de que a verdade de toda a vida humana, isto é, interesses,
tendências, necessidades, ilusões e mesmo estupidez, assim como os atos
de violência e de injustiça, toda ação que parece ser voluntária é
apenas uma conseqüência das forças fatais na vida em sociedade. Não se
pode admitir a idéia da independência mútua sem negar a influência recíproca
da correlação de manifestações de natureza externa.
Na própria natureza, aquela maravilhosa correlação e filiação do fenômeno
não podem ser obtidas sem conflito. Ao contrário, a harmonia das forças
naturais parece ser obtida sem conflito. Ao contrário, a harmonia das forças
naturais parece ser o único resultado do conflito, que é a condição da
vida e do movimento. Na natureza e na sociedade, a ordem sem conflito é
mortal.
Se a ordem é natural e possível no universo, é porque o universo não
é governado por nenhum sistema criado anteriormente e imposto por um
poder supremo. A hipótese teológica de uma legislação suprema leva a
um absurdo evidente, e à negação da ordem e da própria natureza. As
leis naturais são reais apenas enquanto forem inerentes à natureza, isto
é, enquanto não são fixadas por uma autoridade. Estas leis são somente
simples manifestações, ou modalidades descontínuas do desenvolvimento
das coisas e a combinação de fatos variados, transitórios, porém
reais. Juntos constituem o que denominamos “natureza”. A inteligência
humana e a ciência observaram estes fatos e os controlaram
experimentalmente. Estão reuniram-nos num sistema e os denominaram leis.
Mas a própria natureza não tem leis. Ela age inconscientemente,
representando em si própria a infinita variedade dos fenômenos, que
surgem e se repetem de acordo com a necessidade. Graças a esta
inevitabilidade de ação que a ordem universal pode existir e de fato
existe.
Tal ordem também surgiu na sociedade humana, que parece evoluir de uma
forma dita antinatural, mas na realidade, ela se submete à marcha natural
e variável dos fatos. Foi apenas a superioridade do homem sobre os outros
animais que trouxe à sua evolução um elemento especial. Este elemento
é totalmente natural, no sentido de que tal como tudo que existe, o homem
é produto natural da união e interação das forças. O elemento
especial é o poder de raciocínio ou a facilidade de generalização e
abstração, graças à qual o homem se projeta por meio do pensamento, se
examina e se observa como um alienígena, como um objeto externo.
Elevando-se sobre si mesmo e por meio de idéias, e, desta forma,
elevando-se sobre o mundo circundante, ele chega à representação da
abstração perfeita, que é o nada absoluto. Este limite final da maior
abstração do pensamento, este nada absoluto é deus.
Este é o significado e a base histórica de todo dogma teológico. Não
compreendendo a natureza nem as causas materiais de seus próprios
pensamentos, não percebendo as leis naturais que lhes são próprias, os
primeiros homens na sociedade não podiam saber que seus conceitos de
absoluto eram apenas resultados da faculdade de conceber idéias
abstratas. Esta é a razão porque eles consideravam estas idéias,
tiradas da natureza, objetos reais diante dos quais a própria natureza
deixou de ter significado. Então começaram a adorar suas próprias ficções,
suas noções impossíveis do absoluto e a honrá-las. Mas era necessário,
de uma forma ou de outra, incorporar e tornar palpável a idéia abstrata
do nada – ou deus. Com este objetivo, exaltavam a idéia de divindade e
dotavam-na de todas as qualidades e poderes, tanto bons quanto maus, que
encontravam apenas na natureza e na sociedade. Esta foi a origem e a evolução
histórica de todas as religiões, do fetichismo ao cristianismo.
Não temos a intenção de investigar a história dos absurdos religiosos,
teológicos ou metafísicos, e ainda menos de decidir o desenvolvimento
das encarnações divinas e visões criadas por séculos de barbarismo.
Todos sabem que a supertição sempre deu lugar a assustadores azares que
terminavam em torrentes de sangue e lágrimas. Nos contentaremos em dizer
que todas estas repulsivas aberrações da pobre humanidade foram circunstâncias
históricas inevitáveis no crescimento normal e na evolução do
organismo social. Tais observações, dominando a imaginação humana,
geraram na sociedade a noção fatal de que o universo é governado por um
poder e uma vontade sobrenaturais. Século após século, a sociedade
acostumou-se tanto a esta idéia que acabou matando todas as inclinações
em direção ao progresso e toda a capacidade de atingi-lo.
A ambição, inicialmente de alguns indivíduos e depois de classes
sociais inteiras, fez surgir a escravidão e a conquista dos princípios
vitais, e semeou profundamente a idéia da divindade. Desde aí, toda
sociedade se tornou impossível sem ter, como fundamento, as instituições
da Igreja e do Estado. Estes dois flagelos sociais ainda são defendidos
por todos os dogmáticos.
Mal haviam surgido estas instituições, quando duas castas foram
organizadas imediatamente: a dos padres e a dos aristocratas que, sem
perda de tempo, implantaram profundamente nos escravos a
indispensabilidade, a utilidade e a santidade da Igreja e do Estado. Tudo
isto teve por objetivo transformar a escravidão brutal em uma escravidão
assegurada e legal, consagrada pela vontade do Ser Supremo.
Mas os padres e os aristocratas acreditavam sinceramente nestas instituições
que eles mantinham com todo o seu poder e em função do próprio
interesse? Eram apenas mentirosos e farsantes? Não, acredito que eram ao
mesmo tempo crentes e impostores...
Mas assim, como podemos reconciliar dois papéis aparentemente incompatíveis:
crédulo e enganador, mentiroso e crente? Logicamente parece difícil, mas
de fato, na vida diária, estas qualidades estão freqüentemente
associadas.
A grande maioria das pessoas vive em contradição consigo mesma e sob
contínuos mal entendidos. Geralmente, não se dão conta disto até que
algum fato extraordinário os tire do seu sonambulismo habitual e os force
a olhar para si e ao redor.
Na política, como na religião, os homens são apenas máquinas nas mãos
dos exploradores. Mas assaltantes e assaltados, opressores e oprimidos
vivem lado a lado, governados por um punhado de indivíduos que devem ser
considerados como verdadeiros exploradores. São sempre o mesmo tipo de
gente, livre de todos os preconceitos políticos e religiosos, que
maltratam e oprimem quase como uma questão de consciência. Nos séculos
XVII e XVIII até a Grande Revolução, assim como hoje, eles comandaram a
Europa e tudo funcionou como eles queriam. Cremos que sua dominação não
pode mais continuar.
Enquanto estes líderes iludem e enganam o povo deliberadamente, seus
servos, os instrumentos da Igreja e do Estado, zelosamente dedicam-se a
manter a santidade e a integridade destas terríveis instituições. Se a
Igreja é necessária para a salvação da alma, como afirmam os padres e
a maioria dos estadistas, o Estado é, por sua vez, necessário para a
conservação da paz, ordem e justiça. Proclamam os dogmáticos de todas
as classes: “Sem a Igreja e o Estado, não haveria civilização nem
progresso”.
Não há necessidade de discutir o problema da salvação eterna já que não
acreditamos na imortalidade da alma. Estamos convencidos de que o pior
mal, tanto para a humanidade quanto para a verdade e o progresso, é a
Igreja. Poderia ser de outra forma? Pois não cabe à Igreja a tarefa de
perverter as gerações mais novas e especialmente as mulheres? Não é
ela que, através de seus dogmas, suas mentiras, sua estupidez e sua ignomínia
tenta destruir o pensamento lógico e a ciência? Não é ela que ameaça
a dignidade do homem, pervertendo suas idéias sobre o que é bom e o que
é justo? Não é ela que transforma os vivos em cadáveres, despreza a
liberdade e prega a eterna escravidão das massas em benefício dos
tiranos e dos exploradores? Não é essa mesma Igreja implacável que
procura perpetuar o reino das sombras, da ignorância, da pobreza e do
crime?
Se não quisermos que o progresso seja, em nosso século, um sonho
mentiroso, devemos acabar com a Igreja.
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