O último vôo da Columbia
04/02/03
por Diogo Dreyer

 

 

O ônibus espacial Columbia se desintegrou enquanto se preparava para a reentrada na atmosfera da Terra, levando consigo sete astronautas. O acidente lembra a tragédia com a Challenger, 17 anos antes, e coloca em xeque o programa americano de naves espaciais, que agora deverá convencer a opinião pública de que é mesmo necessário.

A missão STS-107 do ônibus espacial Columbia foi a última dessa nave. Ela explodiu na manhã de sábado (1.º/02), dezesseis minutos antes da conclusão de seu vigésimo oitavo vôo. A causa do acidente ainda não foi determinada pela Agência Espacial Norte-Americana, a Nasa. Columbia se desintegrou sobre o estado do Texas enquanto os astronautas se preparavam para a reentrada na atmosfera da Terra.

Os sete tripulantes morreram: Rick Husband, Kalpana Chawla (indiana naturalizada americana), Laurel Clark, William McCool, David Brown, Michael Anderson e o coronel israelense Ilan Ramon.

O administrador da Nasa, Sean O'Keefe, afirmou que duas equipes, uma federal e outra independente, investigarão a causa da explosão. Segundo ele, não há indicações de que o acidente tenha sido causado por algo ou alguém em terra, o que descarta qualquer possibilidade de ato terrorista.

O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, disse lamentar profundamente a morte dos sete astronautas e que o acidente não vai parar o programa espacial norte-americano. O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, decretou luto oficial no país pela morte de Ilan Ramon, o primeiro israelense a visitar o espaço.

O acidente

Os astronautas realizaram uma missão de 16 dias e cerca de 80 experiências científicas. Era o vôo número 113 de um ônibus espacial americano. O centro de controle da Nasa perdeu contato com a nave por alguns segundos antes do acidente, o que é normal na reentrada na atmosfera. Quando o contato não foi restabelecido, perceberam que algo de errado estava acontecendo.

O diretor do programa de naves, Ron Dittemore, declarou à imprensa que nos momentos anteriores à catástrofe houve um “excessivo aquecimento da estrutura do ônibus espacial”. O fato foi registrado sete minutos antes do acidente, que ocorreu precisamente às 8h53, horário em Houston, e 11h53, horário de Brasília. Dittemore comentou que uma parte do revestimento da nave havia se soltado durante seu lançamento, no dia 16 de janeiro. Essa parte atingiu a asa esquerda. Não se sabe, porém, se o revestimento — de teflon, material leve — seria capaz de abalar a estrutura da asa. Mas, segundo Dittemore, a maioria dos problemas registrados antes da perda total de contato ocorreu na asa esquerda.

Mesmo assim, o diretor não acredita que o impacto possa ter causado o acidente. “A perda de uma placa de cerâmica não poderia ser a causa da destruição do veículo. Podemos perder várias placas e ter apenas poucos danos na estrutura”, explica.

Foto: NASA

Instante em que a nave decolava e era atingida por um pedaço da proteção térmica do tanque de combustível.

“Nós tratamos esse impacto do pedaço de isolamento do tanque como qualquer outro evento anormal. Nosso pessoal técnico discutiu profundamente o assunto e chegou à conclusão de que o impacto não teria implicações mais profundas. Nos perguntamos o que aconteceria se estivéssemos errados. Mas não havia outro meio para a nave fazer a reentrada. Caso quisessem voltar para casa, do ponto de vista técnico, não tinham outra forma de fazer as coisas”, relatou.


Challenger

O acidente da Columbia lembra a tragédia com o ônibus espacial Challenger, que explodiu segundos após o lançamento quando saía para sua vigésima quinta viagem, no dia 26 de janeiro de 1986, também matando sete astronautas, entre eles, a professora primária Christa McAuliffe.

No caso da explosão da Columbia, a nave se fragmentou em múltiplos pedaços que se espalharam pelos estados do Texas e Louisiana. A polícia local cuida para que eles não sejam tocados ou removidos, para que possam ser investigados. Mas, já no domingo (02/02), era possível encontrar em leilões na Internet pedaços da nave sendo vendidos.


Futuro

Em setembro de 2001, o senador da Flórida, Bill Nelson, foi profético. “Se não dermos ao programa de naves espaciais os recursos necessários para garantir sua segurança, nosso país pagará um preço insuportável”, disse na época.

Foto: NASA

Foto da tripulação da missão STS-107, a última da nave Columbia. Sentados na frente estão os astronautas Rick Husband (esquerda), comandante da missão, e o piloto Willie McCool. Atrás, da esquerda para a direita: Dave Brown, Laurel Clark, Kalpana Chawla, Mike Anderson e o israelense Ilan Ramon.


A catástrofe da Columbia lançou dúvidas sobre o futuro das naves espaciais, e embora haja quem peça a interrupção de um programa julgado custoso e perigoso, os Estados Unidos poderiam não ter hoje alternativa a não ser continuar com os programas.
“A conquista do espaço continuará”, assegurou em seu pronunciamento após a tragédia o presidente George W. Bush. Mas, com duas naves e 14 vidas perdidas em 17 anos, os responsáveis americanos se perguntam sobre o futuro dos vôos espaciais tripulados: vale a pena correr riscos?

Depois do acidente da Challenger, os vôos espaciais foram suspensos por 32 meses, tempo suficiente para esclarecer as causas do acidente e remediá-las. Horas depois da desintegração da Columbia, a Nasa suspendeu todas as missões de naves até segunda ordem. Mas, segundo vários especialistas, os Estados Unidos não têm como acabar com suas naves, pois, sem elas, não seria possível, por exemplo, terminar a montagem da Estação Espacial Internacional (ISS) e assegurar sua exploração.
Das cinco naves originais, a frota da Nasa agora só conta com três: Atlantis, Endeavour e Discovery. A construção de novas naves exige um gasto altíssimo. No futuro, provavelmente haverá aviões espaciais orbitais, menores que os ônibus espaciais. Mas os primeiros protótipos começaram a ser feitos recentemente e não poderão ser utilizados antes de 2010.

Por Bohdan Metchko Júnior

 

Instante em que o ônibus espacial se desintegrava na atmosfera terrestre.

Investigação sobre o acidente

Com o auxílio de satélites GPS, investigadores esperam traçar um mapa com a localização de cada uma das peças da nave Columbia, pois elas são fundamentais para se determinar o que realmente a fez explodir a uma altitude aproximada de 65 quilômetros. Além disso, existem 32 segundos de dados ainda não analisados que podem conter informações sobre o que causou o acidente.

Hipóteses sobre o acidente

Uma peça de isolamento soltou-se do tanque de combustível, que era mais pesado do que o usual, e acertou uma junção na porta do compartimento de trem de pouso da aeronave, oitenta segundos após o lançamento, no dia 16 de janeiro. Esse choque teria retirado algumas peças de revestimento da asa esquerda, que são resistentes ao calor e protegem a nave durante a reentrada na atmosfera terrestre. O revestimento da nave deve suportar temperaturas entre –156oC e 1.650oC, por isso, foi levantada a hipótese de que, quando a nave entrou na atmosfera, iniciou-se um processo de combustão, que culminou com sua explosão. Há ainda a hipótese de que o choque da peça tenha causado um dano estrutural à asa da Columbia.

O que as análises indicam até agora

Investigadores observaram que alguma coisa aconteceu para fazer o lado esquerdo da nave aumentar sua temperatura muito mais rapidamente do que o direito. De acordo com o gerente de programa de space shuttles (ônibus espaciais) Ron Dittemore, em cinco minutos de observação, instrumentos indicavam um aumento de temperatura quatro vezes maior na asa esquerda em relação à direita. Os eventos ocorreram nesta seqüência:

8h53 — O centro de controle na Terra perde acesso à temperatura do sistema hidráulico na nave; a tripulação não é avisada;

8h56 — Sensores indicam aumento de temperatura e pressão no sistema de pouso da asa esquerda;

8h58 — Perda de contato com três sensores de temperatura da asa esquerda;

8h59 — Perda de contato com o sensor de temperatura e pressão do pneu esquerdo; a tripulação é avisada.

9h — O controle na Terra perde contato com a nave.

Hipótese mais provável

A hipótese de que a explosão ocorreu por causa da perda de algumas peças de revestimento da nave talvez não seja a mais provável. Isso porque esse tipo de perda é comum e, ao que tudo indica, a quantidade de peças destacadas foi pequena. Por isso, acredita-se que houve um dano estrutural na asa esquerda da nave no choque com a peça de revestimento do tanque.

Como teria acontecido o acidente

Uma nave apresenta uma massa aproximada de 90 toneladas. Ela não possui um motor para controlá-la e manter sua estabilidade durante a reentrada na atmosfera terrestre; isso é feito com um sistema de flaps e aleirons (peças da nave que comandam a direção). Esse sistema permite que a nave gire em torno de seu eixo para a direita ou esquerda, com o objetivo de dissipar energia por calor e diminuir sua velocidade.

No entanto, não há muito tempo para manobras. Como os astronautas não têm como compensar a perda de altitude com um motor, eles têm de utilizar os flaps e aleirons, o que torna qualquer compensação extremamente difícil. Segundo especialistas, seria como tentar controlar um tijolo com asas. A nave está a uma velocidade muito alta, correspondente a algumas vezes a velocidade do som — a velocidade de órbita da Columbia é de cerca de 28.000 km/h — e a velocidade de pouso deve estar entre 341 km/h e 363 km/h. Se houver uma manobra num ângulo errado, a nave pode ficar fora de controle, e isso pode ocasionar um colapso na estrutura da fuselagem devido às altas tensões a que fica sujeita.

Conforme as declarações já apresentadas pela Nasa, aparentemente, perdeu-se o controle sobre a asa esquerda da nave. Isso fica evidente pelo fato de a força de arraste na Columbia ter sido tão grande na asa esquerda. O sistema de navegação computadorizado a bordo da aeronave — que a controla durante a reentrada — tentou compensar essa diferença com os flaps e aleirons da asa direita, mas sem conseguir manter o equilíbrio da nave, que acabou entrando em colapso.

Conclusões oficiais

Existem três comitês para analisar o que realmente ocorreu: um do Congresso Americano, um da própria Nasa e outro particular, chamado Comitê Gehman. Além disso, a Nasa está pedindo ajuda para recolher os destroços na nave e coletando vídeos e fotos das pessoas que testemunharam o ocorrido. Será o comitê oficial que fornecerá a real causa do acidente.





Corrida espacial tem histórico de tragédias

Por Ederson Prestes Santos Lima

 
Foto: NASA

A columbia aterrissa no Centro Espacial de Kennedy depois de uma missão em 1994.

A tragédia ocorrida no último sábado com a nave Columbia é o quarto acidente grave no programa espacial norte-americano desde os tempos em que os EUA rivalizavam com sua antiga arquiinimiga, a União Soviética, pelo domínio do espaço.

A nave Columbia foi pioneira, inaugurando o projeto de ônibus espaciais. Foi lançada ao espaço no dia 12 de abril de 1981 (antes da Columbia, a nave Enterprise fez vários testes, mas somente na atmosfera terrestre). A explosão da Columbia, que ocasionou sua completa destruição e a morte de sete tripulantes, provoca mais uma crise no programa espacial dos EUA, e uma série de questões é levantada sobre a segurança dos vôos, situação que já vinha sendo verificada desde o corte de verbas orçamentárias para o projeto espacial. Na história da Columbia estão 28 missões ao espaço.

Em sua última missão, iniciada em 16 de janeiro, a tripulação deveria realizar 80 experimentos científicos em 16 dias. Esse vôo foi cercado de todos os cuidados em virtude da presença de um tripulante israelense, o que poderia gerar a tentativa de algum ato terrorista (alternativa desde o início descartada como causa do acidente).

Antes da tragédia da Columbia, aconteceram sérios acidentes. Entre eles, destaca-se o ocorrido em 27 de janeiro de 1967, quando a nave Apolo-1 teve uma falha em seu sistema elétrico e incendiou-se, matando por sufocamento seus três tripulantes: Virgil Grisson, Edward White e Roger Chaffe. A Apolo-1 era a nave pioneira no projeto norte-americano de levar o homem à Lua, e seu acidente, ainda na fase de testes, quase pôs fim ao projeto. Um detalhe desse acidente: seu tripulante Virgil Grisson já havia escapado de outro acidente espacial no ano de 1961, quando a escotilha da nave Liberty Bell 7 se abriu antes do momento ideal. O astronauta sobreviveu ao incêndio, mas quase morreu afogado no mar por causa da quantidade de moedas que levava em suas botas (sem o conhecimento da Nasa). Segundo o astronauta, as moedas foram levadas para serem posteriormente distribuídas aos amigos.

Coincidentemente, naquele mesmo ano (1967), o projeto espacial soviético sofreu sério revés quando a Soyuz-1 apresentou problemas com os pára-quedas e chocou-se diretamente contra o chão, matando o cosmonauta Vladimir Komarov.

Em 1970, a Apolo-13 perdeu, devido a uma explosão, um de seus tanques de oxigênio, o que obrigou a nave a abortar a missão e retornar a Terra.

Mas certamente o acidente mais grave ocorreu em 28 de janeiro de 1986, quando a nave Challenger, após poucos segundos de seu lançamento da base de Cabo Canaveral, explodiu, matando seus sete tripulantes. Esse acidente torna-se ainda mais trágico quando lembramos que ele foi acompanhado por milhões de pessoas pela televisão. Além disso, ela levava pela primeira vez uma cidadã comum ao espaço, a professora primária Christa McAuliffe.

Com o acidente da Columbia, restam apenas três naves espaciais norte-americanas — Atlantis, Endeavour e Discovery — e uma série de dúvidas sobre o destino do projeto espacial norte-americano e mundial devido aos vários projetos em comum realizados com outros países, inclusive o Brasil.