O último vôo da Columbia
04/02/03
por Diogo Dreyer
O ônibus espacial Columbia se desintegrou enquanto se preparava para a
reentrada na atmosfera da Terra, levando consigo sete astronautas. O
acidente lembra a tragédia com a Challenger, 17 anos antes, e coloca em
xeque o programa americano de naves espaciais, que agora deverá
convencer a opinião pública de que é mesmo necessário.
A
missão STS-107 do ônibus espacial Columbia foi a última dessa nave.
Ela explodiu na manhã de sábado (1.º/02), dezesseis minutos antes da
conclusão de seu vigésimo oitavo vôo. A causa do acidente ainda não
foi determinada pela Agência Espacial Norte-Americana, a Nasa. Columbia
se desintegrou sobre o estado do Texas enquanto os astronautas se
preparavam para a reentrada na atmosfera da Terra.O acidente
Os astronautas realizaram uma missão de 16 dias e cerca de 80
experiências científicas. Era o vôo número 113 de um ônibus
espacial americano. O centro de controle da Nasa perdeu contato com a
nave por alguns segundos antes do acidente, o que é normal na reentrada
na atmosfera. Quando o contato não foi restabelecido, perceberam que
algo de errado estava acontecendo.
O diretor do programa de naves, Ron
Dittemore, declarou à imprensa
que nos momentos anteriores à catástrofe houve um “excessivo
aquecimento da estrutura do ônibus espacial”. O fato foi registrado
sete minutos antes do acidente, que ocorreu precisamente às 8h53, horário
em Houston, e 11h53, horário de Brasília. Dittemore comentou que uma
parte do revestimento da nave havia se soltado durante seu lançamento,
no dia 16 de janeiro. Essa parte atingiu a asa esquerda. Não se sabe,
porém, se o revestimento — de teflon, material leve — seria capaz
de abalar a estrutura da asa. Mas, segundo Dittemore, a maioria dos
problemas registrados antes da perda total de contato ocorreu na asa
esquerda.
Mesmo assim, o diretor não acredita que o impacto possa ter causado o
acidente. “A perda de uma placa de cerâmica não poderia ser a causa
da destruição do veículo. Podemos perder várias placas e ter apenas
poucos danos na estrutura”, explica.
| Foto: NASA |
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Instante em que a nave decolava e era atingida por um pedaço da proteção térmica do tanque de combustível. |
“Nós tratamos esse impacto do pedaço de isolamento do tanque como qualquer outro evento anormal. Nosso pessoal técnico discutiu profundamente o assunto e chegou à conclusão de que o impacto não teria implicações mais profundas. Nos perguntamos o que aconteceria se estivéssemos errados. Mas não havia outro meio para a nave fazer a reentrada. Caso quisessem voltar para casa, do ponto de vista técnico, não tinham outra forma de fazer as coisas”, relatou.
Challenger
O acidente da Columbia lembra a tragédia com o ônibus espacial
Challenger, que explodiu segundos após o lançamento quando saía para
sua vigésima quinta viagem, no dia 26 de janeiro de 1986, também
matando sete astronautas, entre eles, a professora primária Christa
McAuliffe.
No caso da explosão da Columbia, a nave se fragmentou em múltiplos
pedaços que se espalharam pelos estados do Texas e Louisiana. A polícia
local cuida para que eles não sejam tocados ou removidos, para que
possam ser investigados. Mas, já no domingo (02/02), era possível
encontrar em leilões na Internet pedaços da nave sendo vendidos.
Futuro
Em setembro de 2001, o senador da Flórida, Bill Nelson, foi profético.
“Se não dermos ao programa de naves espaciais os recursos necessários
para garantir sua segurança, nosso país pagará um preço insuportável”,
disse na época.
| Foto: NASA |
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Foto da tripulação da missão STS-107, a última da nave Columbia. Sentados na frente estão os astronautas Rick Husband (esquerda), comandante da missão, e o piloto Willie McCool. Atrás, da esquerda para a direita: Dave Brown, Laurel Clark, Kalpana Chawla, Mike Anderson e o israelense Ilan Ramon. |
A catástrofe da Columbia lançou dúvidas sobre o futuro das naves
espaciais, e embora haja quem peça a interrupção de um programa
julgado custoso e perigoso, os Estados Unidos poderiam não ter hoje
alternativa a não ser continuar com os programas.
“A conquista do espaço continuará”, assegurou em seu
pronunciamento após a tragédia o presidente George W. Bush. Mas, com
duas naves e 14 vidas perdidas em 17 anos, os responsáveis americanos
se perguntam sobre o futuro dos vôos espaciais tripulados: vale a pena
correr riscos?
Depois do acidente da Challenger, os vôos espaciais foram suspensos por
32 meses, tempo suficiente para esclarecer as causas do acidente e
remediá-las. Horas depois da desintegração da Columbia, a Nasa
suspendeu todas as missões de naves até segunda ordem. Mas, segundo vários
especialistas, os Estados Unidos não têm como acabar com suas naves,
pois, sem elas, não seria possível, por exemplo, terminar a montagem
da Estação Espacial Internacional (ISS) e assegurar sua exploração.
Das cinco naves originais, a frota da Nasa agora só conta com três:
Atlantis, Endeavour e Discovery. A construção de novas naves exige um
gasto altíssimo. No futuro, provavelmente haverá aviões espaciais
orbitais, menores que os ônibus espaciais. Mas os primeiros protótipos
começaram a ser feitos recentemente e não poderão ser utilizados
antes de 2010.
Por Bohdan Metchko Júnior
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Instante em que o ônibus espacial se desintegrava na atmosfera terrestre. |
Hipóteses sobre o acidente
Uma peça de isolamento soltou-se do tanque de combustível, que era
mais pesado do que o usual, e acertou uma junção na porta do
compartimento de trem de pouso da aeronave, oitenta segundos após o lançamento,
no dia 16 de janeiro. Esse choque teria retirado algumas peças de
revestimento da asa esquerda, que são resistentes ao calor e protegem a
nave durante a reentrada na atmosfera terrestre. O revestimento da nave
deve suportar temperaturas entre –156oC e 1.650oC, por isso, foi
levantada a hipótese de que, quando a nave entrou na atmosfera,
iniciou-se um processo de combustão, que culminou com sua explosão. Há
ainda a hipótese de que o choque da peça tenha causado um dano
estrutural à asa da Columbia.
O que as análises indicam até agora
Investigadores observaram que alguma coisa aconteceu para fazer o lado
esquerdo da nave aumentar sua temperatura muito mais rapidamente do que
o direito. De acordo com o gerente de programa de space shuttles (ônibus
espaciais) Ron Dittemore, em cinco minutos de observação, instrumentos
indicavam um aumento de temperatura quatro vezes maior na asa esquerda
em relação à direita. Os eventos ocorreram nesta seqüência:
8h53 — O centro de controle na Terra perde acesso à
temperatura do sistema hidráulico na nave; a tripulação não é
avisada;
8h56 — Sensores indicam aumento de temperatura e pressão no
sistema de pouso da asa esquerda;
8h58 — Perda de contato com três sensores de temperatura da
asa esquerda;
8h59 — Perda de contato com o sensor de temperatura e pressão
do pneu esquerdo; a tripulação é avisada.
9h — O controle na Terra perde contato com a nave.
Hipótese mais provável
A hipótese de que a explosão ocorreu por causa da perda de algumas peças
de revestimento da nave talvez não seja a mais provável. Isso porque
esse tipo de perda é comum e, ao que tudo indica, a quantidade de peças
destacadas foi pequena. Por isso, acredita-se que houve um dano
estrutural na asa esquerda da nave no choque com a peça de revestimento
do tanque.
Como teria acontecido o acidente
Uma nave apresenta uma massa aproximada de 90 toneladas. Ela não possui
um motor para controlá-la e manter sua estabilidade durante a reentrada
na atmosfera terrestre; isso é feito com um sistema de flaps e aleirons
(peças da nave que comandam a direção). Esse sistema permite que a
nave gire em torno de seu eixo para a direita ou esquerda, com o
objetivo de dissipar energia por calor e diminuir sua velocidade.
No entanto, não há muito tempo para manobras. Como os astronautas não têm como compensar a perda de altitude com um motor, eles têm de utilizar os flaps e aleirons, o que torna qualquer compensação extremamente difícil. Segundo especialistas, seria como tentar controlar um tijolo com asas. A nave está a uma velocidade muito alta, correspondente a algumas vezes a velocidade do som — a velocidade de órbita da Columbia é de cerca de 28.000 km/h — e a velocidade de pouso deve estar entre 341 km/h e 363 km/h. Se houver uma manobra num ângulo errado, a nave pode ficar fora de controle, e isso pode ocasionar um colapso na estrutura da fuselagem devido às altas tensões a que fica sujeita.
Conforme as declarações já apresentadas pela Nasa, aparentemente, perdeu-se o controle sobre a asa esquerda da nave. Isso fica evidente pelo fato de a força de arraste na Columbia ter sido tão grande na asa esquerda. O sistema de navegação computadorizado a bordo da aeronave — que a controla durante a reentrada — tentou compensar essa diferença com os flaps e aleirons da asa direita, mas sem conseguir manter o equilíbrio da nave, que acabou entrando em colapso.
Conclusões oficiais
Existem três comitês para analisar o que realmente ocorreu: um do
Congresso Americano, um da própria Nasa e outro particular, chamado
Comitê Gehman. Além disso, a Nasa está pedindo ajuda para recolher os
destroços na nave e coletando vídeos e fotos das pessoas que
testemunharam o ocorrido. Será o comitê oficial que fornecerá a real
causa do acidente.
Corrida espacial tem histórico de tragédias
Por Ederson Prestes Santos Lima
| Foto: NASA |
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A columbia aterrissa no Centro Espacial de Kennedy depois de uma missão em 1994. |