Parece que o ano de 2003 está decidido a entrar para a história da
astronomia como um ano triste. Em janeiro um incêndio destruiu o
importante observatório de Mount Stromlo, na Austrália. Felizmente não
houve perdas de vida entre os astrônomos e técnicos do observatório
embora, lamentavelmente, tenha havido muitas vítimas entre a população
local. Mas parece que isto não bastava.
No dia 1 de fevereiro, quando retornava à Terra após uma bem sucedida
missão espacial, o Space Shuttle Columbia explodiu, matando seus sete
tripulantes. Uma imensa perda.
A missão do Space Shuttle Columbia decolou no dia 16 de janeiro da base
de lançamentos de Cabo Canaveral. Ela foi a 113a missão
espacial de um Space Shuttle e a 28a do Columbia.
Esta missão estava dedicada, exclusivamente, à pesquisa científica.
Durante seus 16 dias de duração, os astronautas a bordo do Space Shuttle
Columbia realizaram mais de 80 experiências envolvendo ciência e
tecnologia. Esta foi uma das raras missões em que um Space Shuttle não
acoplou com a International Space Station.
A missão STS-107 do Space Shuttle Columbia deveria ter pousado no Kennedy
Space Center às 14:16 horas (GMT) do sábado . Infelizmente isto não
aconteceu.

113a Missão
Space Shuttle
28a Missão
Columbia
STS-107
Tripulação
STS-107 |
comandante |
Rick D. Husband |
| piloto |
William C. McCool |
| comandante de carga |
Michael P. Anderson |
| especialistas da missão |
David M. Brown |
| Kalpana Chawla (Índia) |
| Laurel Clark |
| especialista da carga |
Ilan Ramon (Israel) |
 |
Rick D. Husband
(comandante) |
| Aos 45 anos de idade, o coronel da Força Aérea
norte-americana e engenheiro mecanico Rick Husband estava fazendo
sua segunda viagem ao espaço. Ele já havia participado de um vôo
de Space Shuttle como piloto, a missão STS-96 do Space Shuttle
Discovery em 1999, quando foi realizada a primeira acoplagem com a
International Space Station. |
 |
William C. McCool
(piloto) |
| O antigo piloto de teste William C. McCool, com 40
anos de idade, estava fazendo sua primeira viagem ao espaço. Este
comandante da marinha norte-americana e graduado da Naval Academy
era o responsável pelas manobras que o Space Shuttle deveria
fazer para tornar possível a realização de várias experiências
científicas a bordo da espaçonave Columbia. |
 |
Michael P. Anderson
(comandante da carga) |
| Tenente Coronel da Força Aérea norte-americana,
com diploma em física, Michael Anderson, de 42 anos de idade, era
o responsável pela missão científica que seria realizada a
bordo do Space Shuttle Columbia. Ele já havia ido ao espaço
anteriormente, em 1998, na missão STS-89 do Space Shuttle
Endeavour que acoplou com a estação espacial russa MIR. |
 |
David M. Brown
(especialista da missão) |
| O capitão da marinha norte-americana David Brown,
de 46 anos de idade, estava realizando o seu primeiro vôo ao espaço.
A missão deste aviador e cirurgião era realizar várias experiências
científicas, em particular sobre biologia. |
 |
Kalpana Chawla
(especialista da missão) |
| Nascida na cidade de Karnal, na Índia, em 1961,
Kalpana Chawla era doutora em engenharia aeroespacial pela
University of Colorado, em Boulder. Chawla já era uma veterana no
espaço. Ela foi a primeira operadora de braço robótico na missão
STS-87 do Space Shuttle Columbia, em 1997. Ao terminar a missão,
Kalpana Chawla havia viajado 10,45 milhões de quilômetros em 252
órbitas em torno da Terra, e permanecido 376 horas e 34 minutos
no espaço. |
 |
Laurel Clark
(especialista da missão) |
| Aos 41 anos de idade, Laurel Clark, cirurgiã e
comandante da marinha norte-americana, estava realizando a sua
primeira missão espacial. Ela tinha obtido seu título médico na
University of Wisconsin, em Madison. A missão de Clark era
participar de várias experiências biológicas a bordo do Space
Shuttle. |
 |
Ilan Ramon
(especialista de carga) |
| Aos 47 anos de idade Ilan Ramon foi o primeiro
astronauta israelense. Ele era coronel e piloto de combate da força
aérea israelense. |
|
O Space Shuttle Columbia
Com o nome oficial de Orbiter Vehicle-102 (OV-102) o Space Shuttle
Columbia era o mais antigo space shuttle da NASA em operação. Ele foi o
primeiro space shuttle a ser construído, em 1981, e ainda neste ano fez
seu vôo inaugural ao espaço. No dia 12 de abril de 1981, os astronautas
Young e Crippen realizaram a bordo do Space Shuttle Columbia a primeira
missão de um Space Shuttle, a STS-1.
As principais características técnicas do Space Shuttle Columbia eram:
- altura: 37,2 metros
- diâmetro máximo: 23,8 metros
- volume habitável: 71,50 metros cúbicos
- número máximo de astronautas: 8
- peso (sem motores): 71863 quilogramas
- peso (com motores): 80812 quilogramas
- peso de cada motor principal: 3393 quilogramas
- altura de cada motor principal: 4,2 metros
- empuxo máximo de cada motor (no vácuo): 2308 kN
- tipo de combustível: N2O4/MMH
- carga total: 21190 quilogramas
- velocidade em órbita: 28325 quilômetros por hora
- velocidade de pouso: entre 341 e 363 quilômetros por hora
O material de revestimento do Space Shuttle, ladrilhos de uma cerâmica
especial, está preparado para resistir a enormes variações de
temperatura. No espaço, a temperatura é de -156oC enquanto
que durante a descida, devido ao atrito com a atmosfera, a temperatura de
re-entrada atinge o impressionante valor de 1648oC. Este
revestimento é feito de forma a aguentar, no mínimo, 100 missões
espaciais.
Após o acidente com o Space Shuttle Challenger em 1986 todos os shuttles
foram mantidos em terra para manutenção durante quase dois anos. Além
desta vistoria, o Space Shuttle Columbia passou por três outras seções
de modernização durante o seu tempo de vida operacional.
Após completar a sua missão STS-40, o Space Shuttle Columbia ficou
parado seis meses em Palmdale, entre 1991 e 1992, sendo o primeiro space
shuttle a sofrer uma inspeção marcada anteriormente e passar por um
programa de reajustamento. Foram feitas, aproximadamente, 50 modificações
no Space Shuttle Columbia incluindo a colocação de freios de carbono e
um paraquedas de arrasto, melhorias no volante do nariz do shuttle, e
intensificação do sistema de proteção térmica. Ele retornou ao
Kennedy Space Center no dia 9 de fevereiro de 1992 para iniciar os
preparativos para a missão STS-50 que ocorreria em junho daquele ano.
O Space Shuttle Columbia também passou por dois períodos de manutenção,
um a partir de 8 de outubro de 1994 e outro a partir de 24 de setembro de
1999. Cada um destes períodos durou, aproximadamente, seis meses. No
segundo período foram feitas mais de 100 modificações no space shuttle,
incluindo a instalação de um sistema de mostradores eletrônicos
multi-funcionais chamado de "glass cockpit".
Os novos sistemas instalados a bordo do Space Shuttle Columbia melhoraram
a interação da tripulação com o "orbiter" durante o vôo e
reduziram o alto custo de manutenção dos mostradores eletromecanicos
ultrapassados que estavam a bordo, na cabine do space shuttle.
O Space Shuttle Columbia não apenas foi o primeiro space shuttle a voar
mas também foi utilizado nas cinco primeiras missões de space shuttles,
no período entre 1981 e 1982.
Até o final de 2002 o Space Shuttle Columbia havia completado 27 missões
espaciais.
Suas principais missões foram:
- ele foi o primeiro e único shuttle a pousar em White Sands, em 1982
- foi o primeiro space shuttle usado para colocar um satélite
comercial em órbita em novembro de 1982
- em julho de 1999, durante a missão STS-93, o Space Shuttle Columbia
colocou em órbita o importantíssimo Chandra X-ray Observatory
O acidente inesperado
Esta foi a primeira vez em que ocorreu um acidente durante o retorno à
Terra de uma missão espacial norte-americana. Dois outros terríveis
acidentes fatais ocorreram anteriormente, um durante a preparação para o
vôo e o outro na decolagem. Em 27 de janeiro de 1967, os astronautas da
Apollo 1, Virgil Grissom (comandante), Edward White II (piloto do módulo
de comando) e Roger Chaffee (piloto do módulo lunar), morreram quando um
curto circuito incendiou a cápsula, ainda na plataforma de lançamento,
durante um preparativo para a primeira missão espacial da série Apollo.
Em 28 de janeiro de 1986, no início da missão STS-51L, o Space Shuttle
Challenger explodiu 73 segundos após a decolagem matando seus sete
ocupantes, os astronautas Francis R. Scobee, Michael J. Smith, Dra. Judith
A. Resnick, Ellison S. Onizuka, Dr. Ronald E. McNair, Gregory B. Jarvis e
a professora S. Christa McAuliffe.
O acidente com o Space Shuttle Columbia foi diferente. Os tripulantes já
haviam realizado suas missões e iniciavam as difíceis manobras de vôo
que fariam o Space Shuttle pousar em segurança.
O pouso de um Space Shuttle é uma manobra bastante delicada. O Space
Shuttle possui uma incrível velocidade orbital superior a 28 mil quilômetros
por hora. Ao iniciar a sua aproximação e reentrada na atmosfera, o Space
Shuttle inclina-se levantando o seu "nariz", e fazendo uma
curva, para a direita ou para a esquerda, com o objetivo de reduzir
fortemente a sua energia cinética, diminuindo a sua velocidade de modo
que ela atinja um valor razoável que o permita pousar em segurança.
Mesmo assim, o Space Shuttle cruza a atmosfera terrestre a uma incrível
velocidade, criando uma enorme fricção com as moléculas do ar e
dissipando uma enorme quantidade de calor. Para se proteger deste calor
intenso, o Space Shuttle expõe a sua parte inferior onde cerâmicas térmicas
especiais o protegem contra o atrito.
De acordo com as primeiras declarações da NASA, 80 segundos após a
decolagem do Space Shuttle Columbia, um dos ladrilhos térmicos de cerâmica
que protegem o tanque principal de combustível teria se desprendido e
golpeado o lado esquerdo do shuttle. Segundo a NASA isto não seria
suficiente para produzir o acidente. Vários ladrilhos soltam durante o vôo
e, até hoje, os técnicos da NASA não conseguiram evitar que isto
acontecesse. É interessante notar que a cobertura inferior dos Space
Shuttles possui vários tipos de ladrilhos, de espessuras e tamanhos
diferentes, de acordo com o local de revestimento. Técnicos da NASA
revelaram que, se vários ladrilhos soltarem, não há como consertar o
problema durante o vôo pois seria impossível uma atividade
extra-veicular, ou seja, uma "caminhada espacial", para a parte
de baixo do shuttle.
O que mais chama a atenção é que todos os problemas com o Space Shuttle
Columbia parecem ter ocorrido no seu lado esquerdo, o mesmo que foi
golpeado pelo ladrilho térmico que se soltou do tanque principal. Foi
neste lado que os sensores mostraram um súbito aumento de temperatura em
30oC durante o vôo de aproximação com a terra.
A tragédia ao vivo
Várias pessoas assistiram a explosão do Space Shuttle Columbia. Os
especialistas da NASA estimam que o Space Shuttle Columbia explodiu quando
estava a cerca de 64 quilômetros acima da Terra. Por esta razão eles
acreditam que os restos do shuttle se espalharam por uma enorme região do
estado norte-americano do Texas e da Louisiana. No condado de Nacogdoches,
no Texas, pedaços da espaçonave cairam em uma avenida.
A cerca de 32 quilômetros da cidade de San Augustine, Texas, foi
encontrado o capacete de um dos membros da missão STS-107. No condado
texano de Sabine e em Hemphill foram encontrados pedaços do corpo de um
dos astronautas.
Um fotógrafo amador obteve uma importante imagem (ao lado) do Space
Shuttle Columbia, quando ele realizava a sua passagem sobre o Texas, onde
se vê um forte brilho na trajetória do shuttle, possivelmente o momento
de sua explosão.
Rígidas investigações serão realizadas pela NASA e pelo governo
norte-americano para determinar a causa do acidente. Após o desastre do
Space Shuttle Challenger, os vários shuttles permaneceram em terra
durante quase dois anos, quando foram realizadas intensas modificações e
acrescentados diversos itens de segurança nesta frota de "aviões"
muito especiais.
A seqüência final da tragédia
Os minutos finais da missão STS-107 do Space Shuttle Columbia são
descritos abaixo:
- 13:15 (GMT)
o Space Shuttle Columbia dispara seus retro-foguetes para diminuir a
velocidade e inicia as manobras de pouso.
- 13:53 (GMT)
os controladores de vôo na NASA em terra perdem os dados de 4
indicadores de temperatura dos sistemas hidraulicos dentro e fora da
espaçonave, no seu lado esquerdo. No entanto, o Space Shuttle parece
estar funcionando normalmente pois a tripulação a bordo não recebe
nenhum alarme.
- 13:56 (GMT)
os sensores detectam um aumento de temperatura e pressão nos pneus do
trem de pouso do lado esquerdo do Space Shuttle.
- 13:58 (GMT)
os dados provenientes de três sensores de temperatura colocados
dentro da asa esquerda do Space Shuttle são perdidos.
- 13:59 (GMT)
são perdidos os dados provenientes dos sensores de temperatura e
pressão dos pneus do lado esquerdo do Space Shuttle. Um dos sensores
dá o alarme para a tripulação. Os membros da tripulação estão
acusando o recebimento do alarme quando a comunicação com a espaçonave
é perdida.
- um pouco após 14:00 (GMT)
todos os dados do Space Shuttle Columbia são perdidos. A espaçonave
está a cerca de 63,13 quilômetros de altura sobre a região
centro-norte do estado norte-americano do Texas. Sua velocidade é
equivalente a Mach 18,3. Os técnicos da NASA tentam re-estabelecer as
comunicações com o Space Shuttle durante vários minutos.
Moradores no estados norte-americanos do Texas e Louisiana declaram
ter ouvido um forte barulho e bolas de fogo no céu, possivelmente
restos do space shuttle.
- 14:16 (GMT)
o administrador da NASA, Sean O'Keefe contata o presidente dos Estados
Unidos, George W. Bush, e o diretor de segurança Tom Ridge, quando o
Space Shuttle Columbia não pousa no horário previsto nem
re-estabelece as ligações com a base.
- 14:29 (GMT)
a NASA declara emergência
- 14:44 (GMT)
a NASA alerta os moradores das áreas afetadas para que não se
aproximem dos pedaços do space shuttle tendo em vista a possibilidade
de contaminação tóxica.
- 18:00 (GMT)
a NASA oficialmente anuncia a perda do Space Shuttle Columbia e a
morte de seus ocupantes
- 20:20 (GMT)
a NASA suspende os vôos de todos os space shuttles durante o período
das investigações sobre o acidente com o Space Shuttle Columbia
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