Análise: o que aconteceu com o Columbia?

 

 

 


Piloto automático tentou corrigir o problema de arrasto

 

 

 

David Whitehouse

Dois dias depois da perda do ônibus espacial Columbia e de sua tripulação, começa a surgir uma imagem mais detalhada do que aconteceu.

Uma pergunta não quer calar: será que o fragmento, que se soltou do tanque externo durante o lançamento e atingiu a asa esquerda do Columbia, causou o desastre?

Os investigadores da Nasa estão analisando um enorme volume de informações transmitido do Columbia para o controle da missão. Há dados reveladores.

Um cronograma detalhado está aparecendo:

Temperatura

Às 7h53 (10h53, na hora de Brasília), cerca de 15 minutos antes da hora de pouso programada, a temperatura dentro da roda esquerda do Columbia começou a crescer anormalmente.

Na mesma hora, os sinais dos 11 sensores de temperatura , cuja fiação atravessa a fuselagem em torno do trem de pouso, são perdidos.

A esta altura, a Columbia sobrevoava o oeste da Califórnia, e um cientista da CalTech diz ter visto uma nuvem de destroços cair do ônibus espacial.

A Nasa acredita que isso seja importante, o Columbia poderia estar soltando as placas de isolamento térmico.

Às 7h54, sensores apontam um aumento na temperatura na fuselagem do Columbia sob as placas de isolamento de calor acima da asa esquerda.

Às 7h58, o piloto automático da nave descobre um problema ao começar a compensar um ligeiro aumento na resistência ao ar do lado esquerdo do Columbia.

O maior arrasto indica que as placas de isolamento de calor estavam danificadas ou tinham se descolado.

A esta altura, o piloto do Columbia já teria se dado conta de que o piloto automático estava acertando a trajetória da nave. A Nasa diz que a tripulação não teria se preocupado à toa.

Sem comunicação

Enquanto o piloto automático corrigia a rota, outros sensores dentro da roda esquerda começam a falhar.

Um minuto depois, às 7h59, o problema do arrasto aumenta significativamente, forçando o piloto automático a aumentar o fator de correção, mais do que em qualquer outro momento durante o vôo da nave.

Passado outro minuto, às 8h, a comunicação de voz com o Columbia se perde. Segundos depois, a nave explode. A tripulação morre instantaneamente.

Investigadores do acidente dizem acreditar que poderiam existir outros 32 segundos de dados confusos – mas, provavelmente, úteis – de telemetria, gravados depois da perda de comunicação de voz com a nave.

Essa informação deve estar à disposição dos engenheiros nos próximos dias.

Eles estão ansiosos para examinar esses dados para verificar se há alguma indicação sobre o problema do Columbia.

A grande questão agora é se um fragmento branco que foi visto se descolando da área do tanque de combustível externo, apenas 80 segundos depois do lançamento, e que atingiu a asa esquerda da nave, tem alguma relação com o desastre.

Nos dias que se seguiram ao lançamento, os engenheiros da Nasa examinaram detalhadamente o que aconteceu e concluíram que qualquer dano provocado pelo fragmento teria sido "sem conseqüências".

Cientistas acreditam que o pedaço que se soltou da nave seria de espuma de isolamento.

Astronautas convocados para estudar o incidente ressaltaram que a espuma que recobre o tanque externo é muito fofa e apenas causa um arranhão inofensivo, mesmo quando atinge uma das janelas do ônibus espacial.

Outro ângulo da imagem do fragmento que atingiu a asa esquerda do Columbia mostra que os destroços brancos quicaram na parte inferior do lado esquerdo da nave e se transformaram em uma nuvem de fragmentos, que foram desintegrados pelas chamas das turbinas.

Sem importância?

Uma análise detalhada da velocidade, massa e trajetória dos destroços brancos foi feita na Nasa, mas os engenheiros concluíram que ela "não teve nenhuma importância".

No entanto, a pergunta que não quer calar é: foi coincidência que os fragmentos atingiram o lado esquerdo da nave, justamente a área que apresentou a principal pane?

As investigações continuam, apesar de a Nasa afirmar que qualquer hipótese de que os destroços tenham causado qualquer efeito seja pura especulação.

A imagem que surge depois da tragédia é que danos nas placas de proteção de calor, eventualmente de mais de um ponto do lado esquerdo da nave, tenham resultado em uma descompensação térmica que enfraqueceu a integridade estrutural do ônibus espacial.

O piloto automático teria começado a compensar cada vez mais, aumentando a pressão sobre a fuselagem do Columbia.

Ao mesmo tempo, a asa esquerda começa a se fragmentar, possivelmente rasgando a lateral do ônibus espacial, que gira violentamente e explode.

A tripulação não teve chances de se salvar.