Telescópio submarino ajudará a decifrar criação do universo
14/ 03/ 2003 - Um novo tipo de telescópio europeu, que está sendo instalado
no mar Mediterrâneo a 2.400 m de profundidade, pode trazer respostas aos
segredos da criação do universo através da observação de partículas
elementares, os neutrinos.
Uma primeira fase do futuro observatório, instalado no Mediterrâneo, dez
milhas náuticas ao sul da ilha de Porquerolles, será ativada em meados de março
pelo Nautile, submarino do Instituto francês de Investigações Oceanográficas
(Ifremer).
Os neutrinos, partículas infinitamente pequenas, bombardeiam a terra e a
atravessam, sem deixar vestígios. ''Algumas delas, chamadas de alta energia, vêm
dos confins do universo, de núcleos de estrelas, pulsares ou restos de
supernovas'', explica John Carr, diretor de investigações do Centro de Física
das Partículas de Marselha (Sul da França). Outras poderiam vir de buracos
negros, que representam 90% do nosso universo e que continuam sendo um enigma
para os astrônomos.
A existência de neutrinos foi formulada em 1931 pelo austríaco Wolfgang Pauli,
que obteve o Prêmio Nobel em 1945, e foi demonstrada 25 anos mais tarde pelo
norte-americano Frederick Reines, Prêmio Nobel em 1995. O norte-americano
Raymond David e o japonês Masatoshi Koshiba foram também agraciados com o
Nobel em 2002, por seus trabalhos sobre a detecção de neutrinos cósmicos.
Os cientistas trabalham desde os anos 70 para conseguir extrair informação
destes estranhos mensageiros que poderiam trazer revelações sobre as estrelas,
os buracos negros e o big-bang (explosão que teria dado orígem ao universo há
14 bilhões de anos).
Mas a observação dos neutrinos é uma tarefa complexa, já que interagem
raramente com a matéria. Quando excepcionalmente um deles se choca com um átomo
de matéria, transforma-se em outra partícula, o muon, portadora de uma carga
elétrica que, debaixo d'água, produz um raio luminoso, chamado efeito
Cherenkov, possível de ser medido graças a fotomultiplicadores.
Depois das primeiras experiências realizadas no fundo das minas (para eliminar
os raios cósmicos ''parasitas''), a partir de 1993, cientistas russos
instalaram captores em meio natural, no fundo do lago Baikal, e cientistas
americanos fizeram o mesmo sob o gelo da Antártica.
Os europeus entraram na pesquisa em 1996 com o projeto Antares, dirigido pelo
Centro de Física das Partículas de Marselha e a Comissão francesa de Energia
Atômica. Além da França, outros seis países (Itália, Holanda, Alemanha,
Espanha, Grã-Bretanha e Rússia) participam nos estudos. ''O telescópio
europeu no Mediterrâneo será dez vezes mais preciso que os instrumentos
existentes até agora'', afirmou John Carr.
Fonte: AFP