Equipe italiana pode ter detectado ondas gravitacionais
15/ 03/ 2003 - Ondulações no tecido do contínuo espaço-temporal causadas
por eventos cataclísmicos nas profundezas de nossa galáxia talvez tenham sido
captadas na Terra, recentemente. Se os resultados das medições forem
confirmados, os astrônomos passarão enfim a desfrutar de uma maneira
inteiramente nova de observar o universo.
Einstein previu a existência de ondulações no contínuo espaço-temporal, ou
ondas gravitacionais, em sua teoria geral da relatividade, publicada
inicialmente em 1915. As ondas se despejariam de eventos com índice enorme de
energia -tais como explosões de estrelas, se espalhando à velocidade da luz e
carregando informações únicas sobre os eventos que as produziram ao longo de
imensas extensões do espaço.
Detectá-las poderia ajudar a nos propiciar uma compreensão mais firme da
gravidade e revelaria excentricidades astronômicas tais como a colisão de
buracos negros, que não seriam passíveis de detecção de outra maneira. Mas
até agora nenhum cientista havia conseguido registrar a presença dessas ondas.
Agora, existem indicações preliminares de que uma equipe de pesquisadores
italianos liderada por Eugenio Coccia, dos Laboratórios Nacionais INFI,
localizados em Frascati, e da Universidade de Roma, teria detectado a presença
desse tipo de onda.
''Caso isso seja verdade, é realmente algo de muito importante'', disse David
Blair, especialista em ondas gravitacionais na Universidade da Austrália
Ocidental, em Perth. ''Se pudermos detectar as ondas gravitacionais, seremos
capazes de ouvir o universo, além de vê-lo'', diz. ''Esses detectores seriam
como ouvidos biônicos para a espécie humana''.
A equipe italiana empregou dois dectectores. O primeiro deles, conhecido como
Explorer, é uma barra de alumínio de 2,3 toneladas instalada no Cern, o centro
europeu de Física de partículas, perto de Genebra, na Suíça. O segundo é o
Nautilus, uma barra idêntica instalada no laboratório Frascati.
Para procurar por indícios das ondas gravitacionais, os cientistas monitoram
constantemente as vibrações em ambas as barras. As ondas deveriam esticar e
comprimir as barras de maneira quase imperceptível, o que na prática
equivaleria a fazê-las ''tilintar''. Para reduzir as vibrações emanadas de
outras fontes, as barras ficam suspensas de amortecedores e são refrigeradas até
perto do zero absoluto, para reduzir o ruído térmico.
Se seqüências idênticas de vibrações forem registradas em Genebra e
Frascati na mesma hora, pode ser por efeito de uma onda gravitacional. E o sinal
de uma onda gravitacional seria mais forte, de acordo com as previsões, quando
os lados das barras estiverem voltados na direção de sua fonte.
O grupo de Coccia concluiu que seqüências idênticas de vibrações tinham
maior probabilidade de ser registradas quando os lados de ambas as barras
estivessem voltados para a Via Láctea -que é exatamente onde devem estar
presentes a maior parte das fontes de gravidade mais próximas. Coccia diz que
os resultados indicam que seus detectores estão ouvindo eventos cataclísmicos
em nossa própria galáxia.
Se ficar provado que os sinais representam ondas gravitacionais, elas serão
bastante comuns. Talvez haja dezenas de objetos invisíveis, como buracos negros
e estrelas de nêutrons, colidindo uns contra os outros no interior da galáxia
a cada ano, diz Coccia. O relatório da equipe dirigida por ele foi publicado
pela revista científica ''Classical and Quantum Gravity'' e está disponível
online no endereço http://arxiv.org/abs/gr-qc/0210053.
Blair acautela que o resultado pode ser ilusório. Flutuações de energia nas
redes elétricas da Europa teriam a capacidade de deflagrar sinais simultâneos
em ambos os detectores, por exemplo. A despeito dos esforços da equipe para
cancelar as vibrações originadas em outras fontes, os dados podem conter boa
porcentagem de ruídos, diz Blair, o que tornaria difícil julgar a importância
estatística dos eventos.
Conclusões semelhantes já foram reportadas no passado. Por exemplo, o fundador
desse grupo de pesquisadores italianos, Guido Pizzella, registrou possíveis
ondas gravitacionais supostamente originadas de uma supernova em uma galáxia
vizinha, em 1987.
Mas nenhuma dessas alegações passadas foi comprovada firmemente. ''Ainda
assim, não deveríamos descartar essa possibilidade de imediato'', disse Blair.
''Muita gente é rápida em criticar os outros por escavarem demais na pesquisa
de seus dados. O clima de opinião na comunidade científica é tal que é
preciso ser corajoso para fazê-lo. Eu aplaudo os italianos por persistirem
nessas tentativas''.
Coccia aponta que os detectores hoje disponíveis são 10 mil vezes mais sensíveis
do que os usados em 1987. Mas é o primeiro a admitir que sua equipe e os
operadores de outros detectores precisam de muito mais dados antes que possam
confirmar os resultados obtidos até agora. Pelo final do ano que vem, eles
esperam ter recolhido dados suficientes para remover quaisquer dúvidas.
''Se isso se provar real, ficaremos muito felizes e orgulhosos'', diz Coccia.
''Algumas pessoas vêm trabalhando nesse campo há 30 anos, e seria a realização
de nossos sonhos''.
Fonte: Hazel Muir - Discover