Detectado o planeta extra-solar mais distante que se conhece

 

 

 

07/ 02/ 2003 - Os planetas extra-solares são extremamente difíceis de serem detectados devido ao fato de se encontrarem a grandes distâncias e por não produzirem luz própria. A pequeníssima fração de luz, proveniente da estrela que orbitam, que estes planetas refletem para o espaço perde-se no brilho da própria estrela.

Até agora, os astrônomos têm utilizado medições de velocidades radiais de estrelas, por efeito Doppler, para deduzir a existência de planetas do tipo Júpiter em torno dessas estrelas. Também já foi utilizado o método astrométrico, que mede a ligeira variação da posição da estrela devido à perturbação gravitacional que o planeta produz.

O método de trânsito consiste em detectar a pequena diminuição periódica do brilho da estrela provocada pela passagem do planeta em frente desta. Este efeito é muito pequeno, comparável a um mosquito que bloqueia a luz de uma lanterna colocada a uma distância de cerca de 300 km, mas é detectável. Este método permite calcular o diâmetro do planeta, bem como os parâmetros da sua órbita, com maior precisão do que aquela conseguida pelos outros métodos. Além disso, permite estender a lista de estrelas-alvo candidatas a possuírem um planeta, de cerca de 40 mil para 100 milhões ou mais.

Esta descoberta marca o primeiro caso de sucesso num levantamento de planetas extra-solares pelo método do trânsito, que dura há já alguns anos e que, partindo de uma amostra de milhares de estrelas, identificou dezenas de sistemas candidatos. Contudo, este é o primeiro sistema em que se provou que o companheiro da estrela em causa possui as dimensões de um planeta. Era sabido que um outro planeta, HD 209458b, eclipsa a estrela em torno da qual órbita. No entanto, apesar de ser em princípio detectável pelo método do trânsito, este outro planeta foi na verdade descoberto pela técnica das velocidades radiais.

Este novo resultado provém do estudo de 59 estrelas candidatas identificadas pelo levantamento OGLE (do inglês Optical Gravitational Lensing Experiment), cujo objectivo é monitorizar milhares de estrelas procurando observar uma pequena diminuição do seu brilho provocada pela passagem de um objecto ''escuro''. Das 59 estrelas inicialmente consideradas, apenas 5 permaneceram como potenciais candidatas. Estas foram observadas com o instrumento HIRES (do inglês High Resolution Echelle Spectrometer) no telescópio de 10 m Keck I, em Mauna Kea (Havai). Destas observações, foi possível concluir que a estrela OGLE-TR-56 possui um companheiro com tamanho comparável ao de Júpiter.

O que torna este planeta tão insólito, quando comparado com os cerca de 100 planetas extra-solares já conhecidos, é o fato de estar cerca de 20 vezes mais longe do que qualquer outro. É o único caso até agora conhecido de um planeta que se encontra fora do braço espiral onde se encontra o nosso Sol - o braço espiral do Orionte - localizando-se no braço espiral do Sagitário. Para além disso, este novo planeta órbita a sua estrela a uma distância 50 vezes menor que a distância Terra-Sol, com um período de apenas 29 horas! A temperatura na sua superfície é de cerca de 2000 K. Com uma massa igual a 90 % da massa de Júpiter, o seu diâmetro foi estimado em cerca de 1,3 vez o diâmetro deste gigante do sistema solar, o que implica uma densidade semelhante à de Saturno.

Este planeta pertence à classe dos planetas extra-solares designados por ''Júpiteres quentes'', refletindo o fato de orbitarem a sua estrela a tão curta distância. Os modelos explicam a existência deste tipo de planeta admitindo que eles se formam longe da estrela, a partir do material primordial existente no disco circum-estelar quando a estrela é jovem, para depois migrarem para uma órbita muito mais interior. OGLE-TR-56b ter-se-á aproximado demasiado da estrela, tendo parte da sua atmosfera sido arrancada pela e para a estrela, perdendo o planeta cerca de metade da sua massa original. A temperatura da alta atmosfera de OGLE-TR-56b é, teoricamente, compatível com a formação de nuvens, não de vapor de água, mas de átomos de ferro. Assim sendo, tal significa que este planeta possui um clima exótico, com chuvas de átomos de ferro.

Os resultados desta pesquisa foram publicados pela equipa liderada pelos astrônomos D. Sasselov do Centro Harvard-Smithsonian para a Astrofísica (CfA, EUA) e M. Konacki do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech, EUA), na edição de 23 de Janeiro de 2003 da revista Nature.

 


(CORTESIA: Portal do Astrônomo)