Detectado astro que provoca eco de luz e desafia teorias de evolução estelar
17/ 04/ 2003 - Um obscuro objeto da constelação de Unicórnio tem intrigado
astrônomos do Space Telescope Science Institute, em Baltimore (Estados Unidos).
Por alguns instantes, a estrela V838 Monocerotis se tornou a mais brilhante do
universo: ela atingiu uma luminosidade 600 mil vezes maior que a do Sol. O fato
poderia ser atribuído às explosões que ocorrem durante o ciclo de vida desses
astros, mas a estrela não se enquadra em nenhuma das teorias de evolução
estelar conhecidas até hoje.
O súbito aumento de brilho da V838 Mon foi percebido em janeiro de 2002. A
princípio os astrônomos acreditaram estar diante de uma nova -- grande explosão
que ocorre em sistemas binários (compostos por duas estrelas) como a V838. Mas
a estrela quebrou todos os padrões conhecidos de nova e não ejetou suas
camadas exteriores, como seria esperado. Além disso, ela aumentou seu tamanho e
diminuiu a temperatura, o que é totalmente atípico. ''Estamos tendo muito
trabalho para entender essa explosão, que não tem comportamento previsto pelas
teorias atuais'', diz o astrônomo Howard Bond, líder da equipe de observação.
Outro fator interessante chamou a atenção dos especialistas: a explosão
originou um 'eco de luz', fenômeno que não era observado desde 1936. ''Muitas
estrelas estão envolvidas em 'nuvens', cujo principal constituinte são grãos
de poeira'', explica o astrofísico Walter Maciel, da Universidade de São
Paulo. ''Os raios luminosos emitidos pela estrela são refletidos nesses grãos,
o que forma o 'eco'.'' Essa luz refletida percorre um caminho maior para alcançar
a Terra, e por isso pode chegar a nós com até alguns meses de atraso.
O eco de luz faz com que as camadas de poeira que envolvem a estrela sejam iluminadas seqüencialmente ao longo dos meses
O que faz a V838 Mon tão intrigante para os astrônomos é a combinação de
particularidades que ela apresenta. Envoltória de poeira, indícios de explosão
de nova: a estrela apresenta propriedades de diferentes astros. ''Este parece
ser um objeto único'', diz Maciel. ''Ele tem características de algumas
classes de estrelas que conhecemos, mas não se ajusta completamente nelas, o
que o torna particularmente interessante.''
As peculiaridades da estrela são tantas que é possível que ela represente um
estágio transitório de evolução estelar que, por ser muito rápido, quase
nunca é visto. Na evolução desses astros existem diversas etapas que duram
cerca de mil anos ou menos. Mas a maior parte das estrelas, inclusive nosso Sol,
encontra-se num longo estágio que dura bilhões de anos. Isso torna muito
pequena a probabilidade de encontrar astros em um dos estágios curtos.
O estudo das propriedades da V838 Mon pode ajudar os astrônomos a compreender o
que ocorre ao redor de uma estrela em plena evolução. Os detalhes revelados
pelo eco de luz serão utilizados para desvendar a estrutura tridimensional das
camadas de poeira que envolvem algumas estrelas. Atualmente o eco se expandiu e
alcançou o dobro do diâmetro angular de Júpiter no céu. Para Howard Bond,
ele poderá ser visto durante toda esta década, o que permitiria ainda muitos
anos de observação.
Gisele Lopes - Ciência Hoje Online