Cientistas sugerem que Universo é finito
14/ 03/ 2003 - Embora a Terra seja um objeto finito, um andarilho à procura
de provas jamais encontraria a ''borda'' do planeta, em vez disso, ele
simplesmente daria uma volta no globo e retornaria ao ponto de partida. Um trio
de pesquisadores nos EUA está agora sugerindo que o Universo pode funcionar da
mesma forma: não é infinito, mas, para todos os efeitos, parece ser.
A afirmação é baseada em novas análises sobre os dados obtidos pelo mais
novo satélite da Nasa, o WMAP (Wilkinson Microwave Anisotropy Probe). No mês
passado, a agência espacial americana já havia apresentado as imagens feitas
pela sonda da famosa radiação cósmica de fundo.
A melhor forma de definir essa radiação é descrevê-la como um eco do Big
Bang _a explosão inicial que deu origem ao Universo.
O cosmos era apenas um bebê, com 300 mil anos (hoje deve ter 13,7 bilhões de
anos), e as primeiras partículas de luz esta vam apenas se formando. Com a súbita
expansão do Universo ainda nessa fase primitiva _processo que ficou conhecido
como inflação_, esses primeiros fótons foram espalhados por todos os cantos
do espaço, e hoje podem ser observados vindo de todas as direções.
Analisando a distribuição da intensidade dessa radiação pelos vários pontos
do céu (em alguns pontos ela é ligeiramente mais ''quente'', noutros mais
''fria''), os cientistas podem inferir diversas coisas sobre o Universo e sua
explosão inicial, como a quantidade de matéria e energia existentes, a
geometria (curvatura local do espaço) e topologia do cosmos.
As primeiras grandes medições da radiação foram feitas com o Cobe, um satélite
projetado especialmente para detectá-las. Mas o jogo ficou realmente divertido
no fim dos anos 90, quando uma equipe internacional de cientistas, reunidos no
projeto Boomerang, usou balões para produzir medições 40 vezes mais precisas
do que as do Cobe. Em 2000, o grupo apresentou suas conc lusões sobre o que viu
nos novos dados. Segundo eles, o Universo deveria seguir se expandindo para
sempre e seria essencialmente plano.
Os dados obtidos pelo WMAP agora são ainda mais precisos que os do Cobe. A
equipe da sonda fez uma ''limpeza'' das informações, para excluir a interferência
causada pelos raios de luz vindos de dentro da própria Via Láctea, mas também
disponibilizou o material bruto na internet, para que outros cientistas pudessem
tirar suas próprias conclusões.
Foi o que fizeram o inglês Andrew Hamilton, o sueco Max Tegmark e a brasileira
Angélica de Oliveira-Costa. Ela e Tegmark têm duas coisas em comum: trabalham
na mesma universidade, a da Pensilvânia, nos EUA, e vivem na mesma casa _estão
casados desde 1997. Hamilton é da Universidade do Colorado.
''[Os pesquisadores do WMAP] fizeram um trabalho excelente na interpretação
dos dados, mas estávamos procurando outra coisa, então fizemos uma limpeza
diferente da galáxia'', conta Oliveira-Costa. E o que eles encontraram foi um
eixo de distribuição da radiação que ninguém esperava _e que pode ser
compatível com um modelo de universo finito. ''A gente ainda não sabe o que é,
mas esse é o único modelo que hoje poderia explicar essas coisas'', diz.
A idéia de um Universo finito não é nova. O próprio Albert Einstein
(1879-1955), com sua teoria da relatividade, desenvolveu o conceito de um
Universo curvado e esférico, sem começo nem fim, mas finito (como a Terra, só
que espalhado por quatro dimensões). Só que ele inseriu em sua equação uma
constante para manter o cosmos estático.
O russo Aleksandr Aleksandrovich Friedman (1888-1925) iria mais tarde derivar
novas soluções, inserindo a possibilidade de expansão do Universo _fato que
seria confirmado por observações do astrônomo Edwin Hubble (1889-1953),
fazendo com que Einstein se arrependesse de ter inventado a constante cosmológica.
Os cientistas ainda estão longe de fechar de uma vez por todas a discussão
sobre o formato do Universo (nem sobre se ele é fechado ou aberto parece haver
acordo no momento), mas uma coisa é certa: os dados do WMAP ainda darão muito
o que falar.
Fonte: Folha de S.Paulo