Meteorito pode conter bactérias marcianas
Novas pesquisas indicam que o meteorito
encontrado na Antártida pode revelar vida em Marte

 

 

 

Duas equipes de cientistas anunciaram ter descoberto as mais fortes evidências de que houve vida em Marte. O material, encontrado no meteorito ALH84001, porém, ainda não pôs fim à controvérsia e alguns cientistas afirmam que tais anúncios são exagerados.

O principal indício de que teria existido vida em Marte é a presença de magnetita, pequenos cristais magnéticos, na rocha+. De acordo com pesquisadores, a pureza, forma, tamanho e orientação espacial desses cristais sugerem que eles foram criados por um tipo especial de bactéria, que usa a magnetita como uma espécie de bússola. O trabalho é assinado pela microscopista Katie Thomas-Keprta, da Lockheed Martin, que estudou o meteorito.

"A magnetita pode não ser muito sexy, mas pode ser tão útil e importante quanto os ossos de dinossauros", diz a especialista. Segundo a pesquisa publicada por ela e sua equipe na Proceedings of the National Academy of Sciences, o formato dos cristais é idêntico ao dos criados na Terra pela bactéria MV-1, que vive na água, pode viver sem oxigênio e obter sua energia a partir do dióxido de carbono. "Isso se encaixa perfeitamente na descrição que temos de Marte", explica Katie, para quem os cristais de 3,9 bilhões de anos representam as mais antigas formas de vida que conhecemos. Como esses cristais estão no interior da rocha, devem obrigatoriamente ter se formado em Marte e não são resultado da contaminação de formas de vida terrestres após o impacto do meteorito na Terra.

Impacto - Segundo a equipe, essa bactéria deve ter vivido na lama marciana há bilhões de anos e seus remanescentes foram impelidos para o interior da rocha por causa do impacto de um meteoro na superfície do planeta. Um outro impacto, este ocorrido entre 13 milhões e 16 milhões de anos atrás, lançou a rocha no espaço para uma viagem que terminou na Terra há 13 mil anos, quando ela caiu na banquisa de Allen Hills, na Antártida, onde foi descoberta em 1984.

Outra pesquisa, realizada pela equipe internacional chefiada pelo biólogo Imre Friedmann, da Universidade Estadual da Flórida, e pelo Ames Research Center, da Nasa, mostrou que esses cristais se organizam em cadeias cercadas por halos que se assemelham a fragmentos de membranas celulares, que poderiam pertencer às bactérias que continham esses cristais.

"Cadeias assim não podem ser inorgânicas, cadeias de ímãs entrariam em colapso justamente por causa do campo magnético", diz Friedmann. "O que os impede de entrar em colapso é o próprio organismo. Não há explicação para isso fora do cenário biológico", acredita.

Há outras evidências para a origem biológica da magnetita, produzidas por trabalhos anteriores de Katie Thomas-Keprta, indicando que os cristais não têm contato uns com os outros e, provavelmente, estavam separados por membranas celulares.
 

Orientação - Os cristais - tão pequenos que são necessários 1 bilhão deles para ocupar a cabeça de um alfinete - são bastante uniformes e têm orientações estranhas, diferentes das ditadas pelas forças magnéticas. "Isso sugere que forças biológicas podem ter agido sobre eles", diz Simon Clemett, cosmoquímico do Johnson Space Center, em Houston.

Clemett começou a estudar a rocha em meados da década de 90, quando era aluno na Universidade de Stanford.

Ceticismo - Surgidas em 1996, as primeiras notícias de que haveria fósseis de bactérias no meteorito de 2 quilos foram vistas com ceticismo e descrença. Algumas pesquisas - incluindo a que identificava estruturas em forma de vermes como sendo criaturas marcianas fossilizadas - foram revistas e desmentidas. Outra tese, a de que certas moléculas de carbono presentes na rocha tinham origem na decomposição de antigos organismos marcianos, caiu diante do fato de que compostos semelhantes podem ser criados de forma inorgânica.

A hipótese mais aceita atualmente é que há alguns bilhões de anos Marte não era o planeta inóspito de hoje. A temperatura era mais amena, a atmosfera tinha mais umidade e, provavelmente, havia vida no planeta. Em teoria, essas formas de vida poderiam ter sido fossilizadas.

A tese, porém, está longe de ser comprovada. "Não estou convencido de que esses cientistas estão errados, mas não tenho certeza de que estão certos", afirmou Peter Buseck, mineralogista da Universidade Estadual do Arizona e especialista em magnetita. "Nem todos são otimistas como eles." Para Doug Ming, do Johnson Space Center, a questão da existência da vida em Marte vai continuar em aberto até que seja possível escavar o solo marciano e recolher amostras de rochas.