Vulcões no Céu

Em sua última missão, sonda Galileo
examina erupções em lua de Júpiter

 

 

 
Fotos: Nasa
Erupção em Io (destaque): jatos visíveis da Terra

Viajando no espaço já há dez anos, a sonda Galileo enfrentará agora sua missão mais perigosa. Nesta terça-feira vai se aproximar até 600 quilômetros de distância de Io, um dos satélites de Júpiter. Com o tamanho da Lua, é cravejado com cerca de 100 vulcões em plena atividade e tamanho de pôr no chinelo seus congêneres terrestres. Os vulcões de Io cospem aos céus jatos com mais de 400 quilômetros de altura. São jorros tão espetaculares que podem ser vistos por telescópios instalados na Terra, a 630 milhões de quilômetros de distância. Io é um mundo hostil, digno da mais delirante ficção científica. Gelado, envolto em enxofre e outros gases venenosos. Galileo passará raspando por esse inferno e poderá ter seus equipamentos definitivamente danificados pelas emanações vulcânicas. Os pesquisadores da missão acham que o risco vale a pena porque esperam conseguir imagens nunca antes vistas da luazinha de Júpiter. As fotos existentes de Io têm resolução máxima de 1 quilômetro. Com o equipamento da Galileo será possível tirar fotos com uma resolução de 7 metros.

Exceto pela Terra, Io é o único corpo do sistema solar a abrigar vulcões em atividade. "Marte, Vênus e a própria Lua também tiveram vulcões no passado, mas todos já se extinguiram devido ao resfriamento", diz a brasileira Rosaly Lopes-Gautier, uma das responsáveis pelo estudo dos vulcões na missão Galileo. Rosaly e seus colegas da Nasa, a agência espacial americana, acreditam que toda essa imensa atividade vulcânica seja causada pela brutal atração gravitacional exercida por Júpiter e duas de suas luas – Europa e Ganimedes – sobre o satélite. Esse fenômeno provocaria o aquecimento de seu núcleo e a atividade vulcânica mesmo a uma distância tão grande do Sol. A cientista brasileira já descobriu quase trinta vulcões novos em Io. Dois deles foram batizados com nomes inspirados em divindades indígenas brasileiras: Tupan, deus do trovão, e Monan, deus do fogo.

Fogo e trovão não faltam em Io. Devido à intensa atividade vulcânica, a superfície do satélite está em constante mutação. Lá se encontra a lava mais quente do sistema solar: 1.400 graus Celsius, ou um terço da temperatura na superfície do Sol. Crateras de centenas de quilômetros abrigam lagos de enxofre fumegante. Uma única explosão do vulcão Pillan, ocorrida em 1996, cobriu com uma substância cinzenta uma área de cerca de 300.000 quilômetros, maior que o Estado de São Paulo. Apesar de tanto conhecimento, os cientistas ainda não chegaram a uma conclusão sobre o tipo de material expelido pelos vulcões do satélite. Acredita-se que em alguns a lava seja do tipo basáltica, como ocorre na Terra, mas certas imagens sugerem a existência de correntes de enxofre borbulhante na superfície da lua. Outro mistério é a elevada temperatura da lava. A da Terra já atingiu temperaturas similares, mas isso ocorreu há bilhões de anos. Por alguma razão misteriosa, a passagem do tempo não arrefeceu a temperatura em Io. A curiosidade é que, naquele ambiente de pesadelo, a temperatura na superfície está abaixo de 150 graus negativos. É tão frio que os gases começam a congelar e virar neve tão logo saem da boca do vulcão.

Gigantes que o tempo apagou

Monte Sif, em Vênus: no passado, os rios de lava no planeta tinham centenas de quilômetros de extensão Monte Olimpo, em Marte: altura igual a três montes Everest empilhados