Mundos Gelados
As luas do sistema solar
são a fronteira
mais provável para a vida fora da Terra
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| Esta foto do telescópio Hubble mostra parte
do planeta Júpiter (à esq.) e uma de suas luas, Io |
Uma seqüência de fotos de rara beleza foi divulgada na semana passada
pela Nasa, a agência espacial americana. É uma nova série de imagens produzidas
pelo telescópio espacial Hubble. Trabalhadas por computador para ganhar
mais definição, elas exibem facetas surpreendentes de Io, uma das dezesseis
luas de Júpiter. Na primeira, Io assemelha-se a uma pequena esfera de
rolimã na órbita do maior planeta do sistema solar. Suas dimensões, comparadas
com a gigantesca superfície de Júpiter, são insignificantes, embora o
satélite tenha quase o mesmo diâmetro da Lua terrestre. Numa segunda foto,
Io parece deslizar sobre a atmosfera de Júpiter, com sua sombra projetada
sobre as densas nuvens que recobrem o planeta. Na realidade, Io está a
500.000 quilômetros de Júpiter, uma vez e
meia a distância entre a Terra e a Lua. A sombra, que na foto é apenas
um pequeno ponto escuro, tem aproximadamente 3.640 quilômetros de diâmetro, mais que a distância entre
Curitiba e Fortaleza. A última foto é a mais intrigante. É o flagrante
de uma erupção de Pillan, um dos vulcões de Io, até então inativo.
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| Nesta segunda foto, Io projeta sua sombra (o ponto escuro à direita) na superfície de Júpiter |
As novas imagens registradas pelo Hubble estão entre as mais fascinantes de uma nova era na exploração espacial. Depois de passar séculos pesquisando os oito planetas companheiros da Terra no sistema solar, os astrônomos e engenheiros espaciais estão descobrindo que as grandes novidades estão em seus satélites. Ao todo, o sistema solar tem 63 luas conhecidas. São mundos congelados e relativamente pequenos, mas alguns têm características surpreendentes. O maior deles é Ganimedes, satélite de Júpiter cujo diâmetro é superior ao do planeta Mercúrio. O menor é Deimos, satélite de Marte, com apenas 12 quilômetros de diâmetro (o da Lua tem 3.476 quilômetros).
Pressão infernal . Apesar de ter consumido muito tempo e dinheiro, a exploração dos planetas não revelou até hoje as esperadas surpresas. Verificou-se que, com exceção da Terra, o único com alguma chance de abrigar formas de vida, até o momento, é Marte. Enquanto isso, as possibilidades de haver vida nas luas do sistema solar parecem bem mais promissoras. "Depois de termos resolvido os grandes mistérios que cercavam os planetas, chegou a hora de nos concentrarmos nas luas, que tínhamos praticamente ignorado até agora", disse a VEJA o astrônomo americano Richard Terrile, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, em Pasadena, na Califórnia.
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| A erupção do vulcão Pillan em Io: resultado das marés gravitacionais |
Para sustentar a vida, tamanho pode ser um problema. Grandes planetas, como Júpiter e Saturno, têm forças gravitacionais várias vezes maiores que as da Terra. As pressões na superfície são infernais, maiores que as encontradas no mais fundo dos abismos submarinos terrestres. Nessas condições adversas, há pouca chance de sobrevivência para um organismo mais complexo do que uma ameba. Nas luas, a situação é diferente. "Os satélites, principalmente os de Júpiter e Saturno, têm dimensões adequadas para abrigar vida e, em alguns casos, atmosfera rica em metano e nitrogênio, substâncias que levaram ao surgimento das primeiras moléculas orgânicas em nosso planeta", afirma o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão.
As condições básicas para a existência de vida, na forma conhecida até agora, são a presença de água, energia e matéria orgânica. Recentemente, descobriu-se que em Titã, a maior lua de Saturno, chovem nutrientes orgânicos. Além disso, durante seus 4,5 bilhões de anos, o satélite teve longos períodos de forte insolação, o bastante para derreter o gelo de sua crosta, fornecendo água em forma líquida, segundo o astrônomo americano Carl Sagan, já falecido. Algumas das principais dúvidas dos pesquisadores deverão ser respondidas em 2004, quando a nave Cassini, da Nasa, começar a explorar as maiores luas de Saturno e lançar uma sonda na superfície de Titã.
Io é um dos mais interessantes satélites do sistema solar. Nenhum outro tem tanta atividade vulcânica. Ali, há dezenas de vulcões em erupção ao mesmo tempo. É o único lugar onde se pode observar a superfície se transformando em curto espaço de tempo. Comparando com o que aconteceu na Terra, é como se várias eras geológicas se sucedessem em questão de horas. Depois das fotos do Hubble, os cientistas esperam obter novas informações a respeito de Io no final deste ano, quando a sonda Galileo fará duas passagens rasantes sobre o satélite para capturar novas imagens. "Esse tipo de pesquisa só é possível com a nova tecnologia para construir naves-robôs pequenas e baratas", afirma Terrile. "Agora temos verba para investigar vários desses satélites ao mesmo tempo."
A atividade vulcânica em Io é fruto da proximidade com Júpiter. As forças gravitacionais do planeta gigante são tão intensas que jogam o satélite para a frente e para trás, gerando poderosas marés internas que ativam os vulcões. "A mesma coisa acontece em Europa, outro satélite de Júpiter", explica a astrônoma brasileira Rosaly Lopes-Gautier, especialista da Nasa em planetas. "Ali, o calor interno mantém um oceano líquido, provavelmente de água, escondido sob uma capa de gelo." Estima-se que esse mar tenha duas vezes mais água que todos os oceanos da Terra. Nenhum outro lugar concentra tantas condições propícias à existência de vida. Graças ao vulcanismo, Europa teve, por bilhões de anos, calor suficiente para a formação de moléculas complexas, como proteínas. Por isso, é hoje um dos principais alvos da curiosidade científica no sistema solar.