Caçada Cósmica
Descoberta de planetas menores que Saturno
dá impulso à busca por vida fora da Terra
Há dois grandes mistérios na astronomia. O primeiro diz respeito à existência de planetas similares à Terra fora do sistema solar. O segundo é a possibilidade de existir vida entre as estrelas. Na semana passada, deu-se um novo salto no conhecimento existente sobre corpos orbitando em torno de estrelas. Um grupo liderado por especialistas da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos Estados Unidos, detectou os dois menores planetas já encontrados na Via Láctea, nas constelações de Baleia e de Unicórnio, a pouco mais de 100 anos-luz de distância da Terra. Ainda são planetas grandes quando comparados ao nosso, com massa cerca de setenta vezes maior que a da Terra. Mas é um avanço considerável quando se leva em conta que os outros 32 planetas já identificados fora do sistema solar nos últimos cinco anos são maiores ou iguais a Júpiter, um colosso onde cabem 317 planetas como o nosso.
Os dois planetas de Baleia e Unicórnio, descobertos pelos astrônomos Geoffrey Marcy e Paul Butler, ainda estão longe de apresentar as condições perfeitas para o surgimento de vida da forma como conhecemos. Compostos basicamente de hidrogênio e hélio, estão muito próximos da estrela. O planeta de Unicórnio orbita a 6 milhões de quilômetros da estrela HD 46375, distância que equivale a um décimo da órbita de Mercúrio, o planeta mais próximo do nosso Sol. O de Baleia é mais distante, girando numa órbita elíptica de 52 milhões de quilômetros de distância da estrela HD 16141. São uma antevisão do inferno, tão quentes que se enquadram na categoria de planetas que os astrônomos chamam jocosamente de braseiros, tamanho é o calor em sua superfície. Calcula-se que o planeta em HD46375 tenha uma temperatura média de 1.130 graus Celsius, enquanto o de HD 16141 seja de 830 graus.
Apesar de ser tão inóspitos, foram aclamados como marcos e sua descoberta provocou uma onda de euforia nos centros de pesquisa astronômica. Isso porque demonstraram que é possível, com a tecnologia existente hoje, buscar planetas cada vez menores. "Dentro de um ou dois anos já poderemos encontrar corpos do tamanho de Urano, um planeta apenas catorze vezes maior que a Terra", entusiasma-se a astrofísica Heidi Hammel, do Instituto de Ciência Espacial, em Boulder, no Colorado. "Eles são fundamentais para que um dia encontremos planetas parecidos com a Terra", diz ela.
Erro nas contas – Nenhum dos planetas descobertos até agora foi visto por olho humano. O máximo a que se chegou foi vislumbrar a sombra de um deles se deslocando sobre uma estrela. Os astrônomos inferem a presença dessas esferas gasosas a partir do deslocamento gravitacional que provocam na estrela. Imensos e muito próximos de seu sol, esses planetões o deslocam ligeiramente de seu eixo. É essa oscilação que os cientistas medem, a partir de observações feitas em potentes telescópios, como o do Observatório Keck, no Havaí. "Quando percebemos um corpo que pode ser um planeta, antes mesmo de comemorar, nos perguntamos se não cometemos um erro qualquer nas contas", afirmou Marcy na entrevista realizada na sede da Nasa em Washington e transmitida por satélite para todo o mundo.
Entre todos os planetas já descobertos em torno de estrelas, 21 foram detectados pelo grupo de Berkeley. Há um ano, os mesmos astrônomos anunciaram a descoberta do primeiro sistema planetário orbitando uma estrela próxima ao Sol, a Upsilon Andrômeda. Tratava-se de três grandes planetas, com massa variando de 230 a 1470 vezes o tamanho da Terra. Atualmente, Marcy e sua equipe checam os dados de outros dez possíveis planetas, alguns deles com dimensões saturnianas, e vasculham outras 1100 estrelas a até 300 anos-luz de distância da Terra atrás de novidades.
Apesar de patrocinar os estudos de Marcy e Butler, a Nasa quer meios mais eficientes de detecção. O problema da técnica de Marcy e Butler é só enxergar planetas muito grandes e que estejam em uma órbita solar bem pequena. A Nasa está desenvolvendo uma metodologia alternativa para captar apenas planetas pequenos. Há duas semanas a agência espacial americana lançou um ambicioso projeto para a localização de planetas semelhantes à Terra em estrelas que ficam num raio de cinqüenta anos-luz do Sol. De tecnologia avançada, o programa tem como objetivo ir além da detecção feita atualmente e captar a imagem dos planetas, coisa que os pesquisadores atuais ainda não conseguiram fazer.
Setenta e cinco pesquisadores da Nasa, empresas aeroespaciais e cinqüenta universidades estão trabalhando no projeto de quatro satélites que devem começar a funcionar apenas em 2011. Os satélites, construídos no formato de discos espelhados, ficarão voltados para fora do sistema solar e seguirão atrelados à órbita terrestre em torno do Sol. Dotados de interferômetros, aparelhos capazes de captar a radiação luminosa de diferentes elementos químicos a uma grande distância, esses satélites poderão até ver se o planeta tem em sua estrutura os elementos ligados às formas de vida como conhecemos, principalmente carbono, nitrogênio, água, metano e ozônio. Os dados serão processados em um quinto satélite. "Procuraremos basicamente por planetas de temperaturas amenas, capazes de reter água em forma líquida e até mesmo representar sinais de vida primitiva", diz Charles Beichman, cientista responsável pela missão no Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa. A missão deve durar cinco anos e os primeiros equipamentos que comporão os telescópios já começaram a ser testados em vários observatórios, como o próprio Keck e o de Monte Palomar. Uma vez que a flotilha de satélites se instale no espaço, só resta aos cientistas cruzar os dedos e vasculhar o espaço em busca de planetas e de vida.
